Arquivos diários: 21 de junho de 2014
Caixinhas de surpresas
Clichê, lugar-comum, platitude: ainda não se encontrou expressão melhor para caracterizar as incertezas e as espantosas possibilidades de um torneio ou match de futebol.
Inacreditável: chilenos cortaram a orelha do touro espanhol, costarricenses humilharam a arrogante azurra italiana, inspirados pelo presidente “Pepe” Mujica uruguaios mandam os inventores do futebol para o jardim-de-infância e o bravo México, pátria das revoluções, obriga o gigante adormecido, rei do futebol-improviso a tentar o que faz de melhor –improvisar.
A Copa das Copas, a esta altura, já consolidou um saldo concreto, visível: o continente das banana-republic entrou em campo repaginado, com um uniforme de seriedade, convicção e, sobretudo, gana. O substantivo tem em português uma conotação algo negativa, mas o filósofo-viajante alemão, Hermann Keyserling, no início do século 20 descobriu que este é o continente da vontade superior, imponderável, impulso firme, ímpeto sereno.
Aqui e agora, a palavra de ordem é re-invenção. Pronunciou-a o goleiro Júlio Cesar, evocou-a o sósia de Scolari numa entrevista que o verdadeiro seria incapaz de enunciar, antecipou-a Tarso Genro em 2005 quando clamou pela re-fundação do PT.
Reinventar-se independe de investimento, recursos e discursos. A re-invenção é um estalo – como o do padre Vieira – uma dor, clarão e o pavor de bater com a cara na parede. Re-invenções decorrem de situações-limite: sem aquela angustiazinha persistente, chata, sem comichão na alma, atolados na perplexidade não “cai a ficha”.
O triunfal “eureca” (encontrei!) berrado por Arquimedes na banheira levou-o a sair pelado pelas ruas de Siracusa entusiasmado com a solução do problema da medição do volume de um corpo.
O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, teve um destes estalos quando a Câmara Municipal recusou seu pedido para feriar a próxima segunda, 23, quando o Brasil joga em Brasília e no Itaquerão enfrentam-se chilenos e holandeses. Diante do inevitável entupimento das vias, colapso, desdobramentos impensáveis, o prefeito deixou-se empurrar para a opção restante – atenuar o rush, escalonar o horário de saída dos diferentes segmentos, desconcentrar o movimento das massas, adotar outra pulsação para a cidade.
A caixinha de surpresas aberta pelo mega-torneio de futebol levou um prefeito legitimamente assustado a ensaiar um experimento testado em todas as megalópoles do planeta. Se adotado depois das jornadas de junho do ano passado teria evitado a implantação de medidas drásticas que penalizam uma parte da população. Em emergências deve aliviar e, se institucionalizada, alongará o período em que a cidade está mais viva.
Re-inventar a mobilidade urbana sem recorrer a obras faraônicas ou de science-fiction pode ser a solução mágica, o ovo de Colombo inspirador para uma virada tática da seleção. A caixinha de surpresas contém sempre algo extremamente simples e universal -o meio de campo faz milagres.
Alberto Dines é colunista do EL País.
O Ebola mais mortífero da história
A epidemia do vírus Ebola que está afetando três países da África ocidental se intensificou nas últimas duas semanas e já tirou a vida de 337 pessoas, desde que o primeiro caso aconteceu, há mais de seis meses, segundo informou a Organização Mundial da Saúde, tornando-se a epidemia mais mortífera da história da doença.
O total de casos se eleva, assim, a 528. Guiné continua sendo o país mais afetado, com 264 mortos, seguido de Serra Leoa e Libéria, com 29 e 24 mortos, respectivamente. O surgimento da doença em uma zona transfronteiriça, na qual ocorrem deslocamentos constantes de pessoas de um povoado para outro, a resistência de parte da população em procurar assistência sanitária por medo do estigma e a irrupção do vírus em duas cidades grandes, como Conacri e Monróvia, são as principais razões das dimensões que o surto atual está assumindo, segundo os epidemiologistas.
Até agora, a pior epidemia de Ebola da história tinha sido a primeira, registrada em 1976 na região de Yambuku, atual República Democrática do Congo, que provocou 318 casos e 280 mortos. A irrupção de uma doença então desconhecida fez com que o surto fosse o mais mortífero, pois não foram adotadas medidas adequadas para evitar o contágio a tempo.
No entanto, a epidemia atual continua seu avanço incontido por mais que a OMS, os Médicos sem Fronteiras e os respectivos governos tenham implantado uma série de medidas voltadas à detecção precoce, ao isolamento dos doentes e à contenção da doença. Pela primeira vez na história, uma epidemia de Ebola atinge a região da África ocidental e três países ao mesmo tempo. Os especialistas já advertiram há meses: “Será difícil controlar”.
O Ebola é um vírus encontrado naturalmente em algumas espécies de morcego que habitam as regiões florestais da África. Desde sua identificação em 1976, houve 18 surtos em países como República Democrática do Congo, Gabão, Uganda e Sudão.
Depois de um período de incubação que pode ser de vários dias até três semanas, os primeiros sintomas são febre alta, dores musculares, vômitos e diarreia, que podem evoluir rapidamente para hemorragias internas que, em muitos casos, causam a morte do paciente.
Uma vez que não há tratamento conhecido, os médicos enfrentam o vírus tentando aliviar os sintomas com o reforço do sistema imune. Uma alta porcentagem de mortos fazia parte das equipes de saúde que estiveram em contato próximo com os pacientes sem tomar as medidas de prevenção adequadas.
Fonte: EL País.
Julian Assange: dois anos de confinamento
A disputa política e diplomática encarnada pelo fundador do WikiLeaks, Julian Assange, permanece em aberto e completa dois anos desde que ele entrou na Embaixada do Equador em Londres, onde permanece refugiado sob o risco de ser preso se colocar os pés para fora do imóvel.
O governo do Equador insiste que o ex-hacker, a quem promotores suecos querem interrogar por possíveis crimes sexuais, “não é um fugitivo”, ao passo que as autoridades britânicas persistem empenhadas em detê-lo por ter violado os termos da liberdade condicional em 19 de junho de 2012.
Por isso, elas mantêm em torno da sede diplomática um cerco policial cuja fatura já beira os seis milhões de libras (cerca de 23 milhões de reais).
Em todas as entrevistas feitas com Assange nestes dois anos, uma pergunta é constante. Como é viver em uma embaixada? Suas respostas permitiram aferir que ele passa os dias confinado em um escritório de 20 metros quadrados, transformado em dormitório.
Nesse espaço trabalha (jornadas de 17 horas à frente do computador), se exercita (em uma esteira de corrida que ganhou de presente do cineasta Ken Loach) e recebe visitas, segundo relatos do jornal britânico The Daily Mail em 2012.Por declarações de um de seus advogados, Baltasar Garzón, sabe-se que seu mobiliário inclui uma cama, uma mesa e uma estante – e aí se acaba seu mundo.
Os termos que o atual embaixador expõe hoje continuam sendo os mesmos nos quais insiste o presidente do Equador, Rafael Correa, desde que concedeu asilo político por “razões humanitárias” ao pirata informático australiano: que a Justiça sueca o interrogue por videoconferência ou desloque a seus funcionários a Londres para esse fim.
A promotoria sueca considera que, em vista dos delitos, pelos quais foi ele denunciado pelas supostas vítimas, identificadas como Srta. A. e Srta. W, é necessário que Assange seja interrogado na Suécia.
O Governo equatoriano defende que ele seja interrogado em Londres porque “aceitou os argumentos de Assange” de que correria o risco de ser extraditado para os Estados Unidos se aceitasse viajar à Suécia a fim de responder às acusações de estupro e assédio sexual contra duas mulheres. Formalmente, ele não foi transformado em réu nesse processo no país escandinavo.
O hacker que há quatro anos difundiu pelo Wikileaks milhares de telegramas confidenciais do Departamento de Estado dos EUA e sobre as operações militares no Iraque e Afeganistão é hoje um homem “que sofre”, nas palavras do embaixador Falconi, e que vive encerrado em um dos 12 cômodos da embaixada equatoriana, no bairro do Knightsbridge.
A última imagem divulgada ao mundo é uma fotografia espalhada pelas redes sociais às vésperas do início da Copa do Mundo, em que ele aparece com bom aspecto e trajando, claro, a camisa da seleção do Equador.
Julian Assange
“Passaram-se dois longos anos desde que entrei neste edifício (…) A situação é difícil para mim, pessoalmente e muito mais para meus filhos, mas tenho vantagens, graças ao apoio do Governo equatoriano e seu povo tenho conseguido trabalhar em circunstâncias difíceis. Sim, com uma ampla vigilância policial ao redor do edifício; sim, incluindo a espionagem da agência britânica de inteligência, mas trabalhar (…) Essa capacidade de trabalho me manteve em marcha (…) O jogo ainda não terminou, sabemos em relação a direito internacional que o Reino Unido, os Estados Unidos e a Suécia têm a obrigação de respeitar os direitos de asilo de todo o mundo”.
Acrescentou que formalmente não é acusado de crime algum e que mesmo assim está retido em Londres há quatro anos (dois anos na Embaixada do Equador).
Para terminar lembrou sua missão com o mundo. “Quando alguém tem um princípio, é necessário lutar por ele e simplesmente não ceder. E em relação às promessas que fiz ao mundo para mostrar a informação dos Estados Unidos e seus aliados, isso é algo que estou decidido a fazer e não falharei”.
“No caso de Assange, não haverá garantias do devido processo”.
Fonte: EL País.
A Odebrecht é denunciada por trabalho escravo e tráfico internacional de pessoas
O Ministério Público do Trabalho (MPT) entrou, na sexta-feira 13, com uma ação contra o grupo Odebrecht, responsável pelas obras de três estádios-sede da Copa deste ano, por condição degradante de trabalho, trabalho escravo, tráfico internacional de pessoas, cerceamento de liberdade, retenção de documentos e intermediação de mão de obra.
As denúncias são relacionadas às obras de construção de uma usina de cana-de-açúcar em Angola, entre os anos 2011 e 2012 e foram protocoladas depois da publicação de uma reportagem pela BBC Brasil no final do ano passado.
Se for condenada, a empresa brasileira terá de pagar uma indenização de 500 milhões de reais. “Além da multa, que foi calculada sob os critérios de gravidade dos fatos e capacidade financeira da empresa, a Odebrecht ainda estará proibida de receber financiamento do BNDES para futuros projetos”, explicou o procurador Rafael de Araújo Gomes.
Segundo Gomes, os crimes trabalhistas foram cometidos contra cerca de 500 trabalhadores brasileiros que foram levados a Angola para trabalhar nas obras que pertencem à empresa Biocom, companhia angolana da qual a Odebrecht é sócia, juntamente com as angolanas Sonagol Holdings e Damer Industria.
“Com relação às condições degradantes, a Odebrecht já foi condenada em outras dezenas de ações judiciais”, diz Gomes. “Em 2008, a empresa foi notificada por esse mesmo motivo em outra obra de Angola”, completa.
Além da submissão a condições degradantes de trabalho, a empresa ainda é acusada de aliciamento dos trabalhadores recrutados, “primeiramente em território nacional e a seguir no exterior, tratando-se de hipótese típica de tráfico de seres humanos”, segundo o documento.
Os aliciados acabaram se tornando, não só imigrantes ilegais, pois não tinham o visto correto para a permanência no país, pois o procedimento adotado pela Biocom / Odebrecht era de imediatamente tomar dos trabalhadores os seus passaportes, diz o documento.
A Odebrecht, Fundada na década de 40 na Bahia, é hoje um dos maiores conglomerados brasileiros, atuante nas áreas de engenharia, construção, produtos petroquímicos e químicos.
É a responsável por obras como os estádios do Itaquerão, Maracanã e Arena Pernambuco, ambos sedes da Copa do Mundo deste ano, além do Aeroporto Tom Jobim e Santos Dumont (ambos no Rio de Janeiro), além da linha amarela do metrô de São Paulo, entre outros empreendimentos, no Brasil e nos Estados Unidos.
No ano passado, a empresa faturou 97 bilhões de reais, e teve lucro líquido de 491 milhões de reais.





