Arquivos diários: 14 de junho de 2014

Randolfe Rodrigues desiste da candidatura a presidente pelo PSOL

Randolfe-RodriguesCarta aos Militantes

O Brasil vive uma grave ofensiva conservadora. Cada vez mais forças sociais unificadas em torno de personalidades e discursos estão empenhadas em fazer retroceder direitos e colocar o Brasil na via expressa do neoliberalismo, agora com um viés abertamente de direita, sem o verniz social-democrata de antes.

As forças sociais progressistas, divididas em diferentes plataformas e organizações, sem uma liderança comum e agregadora e sem uma compreensão compartilhada do contexto e das tarefas necessárias para fazer o Brasil avançar, mostram-se frágeis frente ao avanço conservador. A sociedade se divide entre a justa indignação pela ampliação de conquistas e uma agenda de demandas difusas à procura de uma bandeira que as unifique.

A atual Presidente da República se demonstrou incapaz de estar à altura da tarefa de unificar o país em torno de uma proposta de avanços sociais combinados com desenvolvimento econômico, ousadia na conquista dos direitos civis, reforma urbana nas cidades, ganhar corações e mentes da nação brasileira e recuperar a credibilidade do país diante do mundo.

A candidatura de Aécio Neves se tornou herdeira da pauta conservadora, alijada do poder desde a saída de Fernando Henrique, o que o tornou incapaz de apresentar ao país nada mais do que as proposições oposicionistas requentadas do passado. É um novo ecoando as velhas propostas elitistas, incapazes de responder aos novos dilemas nacionais e de alçar a condição de amálgama nacional que o momento exige.

A candidatura de Eduardo Campos, que despontava como terceira via em uma disputa tensionada entre PT e PSDB, frustra o país, mostrando-se claudicante em palavras e atos contraditórios em declarações cada vez mais desencontradas, não dando à população a segurança necessária para ser identificada como uma efetiva quebra na bipolarização entre petistas e tucanos.

Num contexto de acirrado debate não em torno de ideias, mas em torno de vitupérios e acusações mútuas cumulativas, o país se prepara para uma campanha eleitoral sem líderes e sem ideias.

Percebendo o vazio, a nação vai se sentindo órfã, e essa orfandade vai aprofundando um sentimento de abandono que dá acolhida ao desespero e com ele, a propostas de corte fascista, como da pena de morte, panaceia direitista para a violência, que se alastra não apenas na falta de políticas públicas voltadas a minimizar o choque de interesses entre ricos e pobres, mas sobretudo na falta de autoridade, que não é dada pelas armas e pelos blindados do choque que violenta os jovens que protestam por direitos nas ruas, mas pela condução moral e intelectual que só uma liderança legítima pode oferecer a nação brasileira.

Lamentavelmente o ódio e a intolerância estão se tornando a matéria prima na caça ao voto em 2014. Por que isso acontece? Porque falta ao processo eleitoral lideranças capazes de falarem em nome da nação, e falta à esquerda a capacidade de se renovar e estar a altura das tarefas que o Brasil exige.

A leitura incorreta do sentimento das massas e da indignação que explodiu nas jornadas de junho de 2013, levou a esquerda programática a acreditar que estávamos diante de uma “avenida de oportunidades”. É necessário neste momento ter humildade para fazer a autocrítica. Os modelos tradicionais da política estão em xeque, como também estão em xeque as direções, partidos e movimentos que não conseguiram se atualizar e abriram espaço para a pauta conservadora.

O Psol tem que estar a altura dos seus grandes desafios. Acredito que a principal figura de nosso partido neste momento, o Deputado Estadual Marcelo Freixo, deveria assumir a responsabilidade de liderar um processo de renovação da política brasileira em 2014.

Saio da pré-campanha presidencial para retomar em plenitude minhas tarefas como Senador e a importante função de representante do Amapá, empenhando-me em melhorar cada vez mais as condições de vida do meu povo e a qualidade da política em meu estado.

Quero agradecer o carinho de militantes que defenderam a nossa candidatura durante o 3º. Congresso Nacional do Psol no último 1º de dezembro em Luziânia em Goiás, e da mesma forma agradecer o esforço de companheiros por todo o país na construção não somente desta candidatura, mas também no sonho de uma sociedade livre, democrática e socialista.

Agradeço de igual forma a companheira Luciana Genro e acredito que se for à vontade do Partido a definição do nome dela como candidata, ela estará a altura do ponto de vista intelectual, político e moral. E para isso contará com o meu engajamento. Desejo à Luciana, minha companheira destes últimos meses, uma boa luta.

Tenho Fé e Esperança no Psol e no seu Destino! Acredito em um partido que esteja  à altura do Brasil e do desafio geracional de construir uma esquerda para as novas gerações neste século XXI.

Senador Randolfe Rodrigues

COPA PARA OS RICOS

lula

Lula disse: “com exceção da presidente, não havia um pobre sequer no Itaquerão”, sugerindo que as hostilidades praticadas contra sua afilhada política tinham partido de pessoas pertencentes a classes sociais elevadas.

Ele afirmou, ainda, que os palavrões foram gestos grosseiros e desnecessários e que a imprensa incentivou as agressões à presidente.

A Copa da exclusão.

ITAQUERÃO

SÃO PAULO – Tainá Salustiano e mais cinco amigos, com idades entre dez e 17 anos, andaram por quase quarenta minutos do centro de Itaquera, de onde moram até a Avenida Doutor Luís Aires, a menos de um quilômetro da Arena Corinthians, para onde pretendiam seguir.

O objetivo era assistir a disputa entre Brasil e Croácia de um telão que, segundo os boatos espalhados pelas crianças do bairro, havia sido montado ao lado do estádio. A aventura, no entanto, parou por ali.

No meio do caminho tinha um bloqueio de Policiais Militares para impedir qualquer passo a mais em direção à arena de pessoas que não tivessem em mãos um ingresso, cujo preço começava em 160 reais – quase um quarto do salário mínimo.

“É muita sacanagem. É nossa única oportunidade de chegar perto de um jogo do Brasil”, lamentava a menina. Mas o grupo não foi barrado sozinho. Os relatos de moradores que não conseguiram se aproximar do estádio eram muitos em Itaquera, bairro pobre da zona leste de São Paulo, onde está localizada a arena de inauguração do Mundial de 2014.

O bairro onde vivem cerca de 624.000 pessoas, com 291 favelas e a menor renda familiar da cidade, foi quase isolado nesta quinta-feira por bloqueios policiais. Uma questão de segurança, explicou um deles. “E, também, se deixassem todo mundo passar viraria bagunça”, completou.

 Fonte: EL País

Futebol e Política

FAVELAS

O futebol no Brasil sempre teve uma relação íntima com a política e foi utilizado em grande medida durante a ditadura militar (1964-1985) para configurar o ufanismo de uma nação construída por negros, índios, portugueses, e tantas outras nacionalidades. A construção da identidade foi questionada na época pelos intelectuais, que entendiam que torcer pelo Brasil era torcer por um regime com o qual discordavam. Tanto foi assim que o meia Zico não compôs o time olímpico em 1972 nem a seleção em 1974, justamente pelo histórico opositor de seu irmão, o centroavante do Fluminense, Fernando Antunes Coimbra, que contou sua versão dos fatos recentemente em uma mesa redonda no Museu da Resistência, em São Paulo.

Um esporte de origem amadora que conseguiu superar as barreiras elitistas de berço para cair no gosto popular era o instrumento ideal para agregar e unir pessoas em torno de um ideal comum: conquistar a Copa do Mundo. O campeonato foi usado também pelos governos de Juscelino Kubitschek e João Goulart, que se aproveitaram das situações favoráveis da seleção de 1958 e 1962, com os memoráveis Pelé e Garrincha no elenco.

“É por isso que dizemos Brasil ao invés de seleção brasileira. É como se o país estivesse em campo”, explica Flávio de Campos, coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Sobre Futebol da Universidade de São Paulo.

O fato de o evento ser realizado no Brasil fez com que todos os problemas nacionais se evidenciassem – e não somente para os brasileiros. A agenda esportiva está vinculada à política desde 2007, ano em que o Brasil soube que seria a sede da Copa. E o futebol, neste caso, dramatiza todos esses conflitos sociais. “A tendência é que este mau humor dos movimentos populares, dessa mobilização social que é também uma desmobilização torcedora, seja ampliado” até o final da Copa, afirma Campos.

A metáfora de um time de futebol, formado muitas vezes por jogadores de origem humilde, pode ser a metáfora de um Brasil que também está chutando a bola para superar a pobreza – e todos os demais problemas.

A Inglaterra e o calor de Manaus

INGLATERRA

O calor e a umidade são bons para as distrações turísticas e para o cultivo do mamão, mas podem constituir uma combinação devastadora para a prática do esporte. O clima de Manaus desatou um conflito diplomático há alguns meses, quando, antes do sorteio, o treinador inglês, Roy Hodgson, declarou que jogar ali seria “problemático” para as equipes do norte da Europa.

O comentário provocou a ira do prefeito da cidade, Arthur Virgilio (PSDB), membro de um célebre clã de políticos amazonenses. “Nós também preferiríamos que a Inglaterra não viesse”, protestou. “Esperávamos que nos coubesse uma equipe melhor, com um treinador mais sensível e educado. Hodgson é uma das poucas pessoas no mundo que não sentem curiosidade pelo Amazonas.”

Hodgson deu azar. O sorteio da FIFA mandou a Inglaterra para jogar em Manaus. E não uma partida qualquer. O globo com os papeizinhos a emparelhou com a Itália na primeira rodada do chamado Grupo da Morte, no qual também está o Uruguai. Os jogadores e os médicos vivem desde então preocupados em se adaptarem ao calor.

Há na seleção inglesa assistentes que se dedicavam durante os treinos no Rio a refrescarem os jogadores com sprays. Daniel Taylor, do Guardian, relatou que a operação “lembra a rega de um gerânio”. O vestiário inglês no estádio do Amazonas contará com um ventilador industrial trazido de Londres para atirar ar e vapor de água sobre os corpos dos jogadores.

ardo Mora Rodríguez, chefe do Laboratório de Fisiologia do Exercício da Universidade de Castilha-La Mancha, dá a razão a Hodgson. “A alta umidade [em Manaus a previsão é de 30 graus, com uma umidade entre 70% e 90%] faz com que o suor não se evapore bem”, adverte o fisiologista. “Se esse mecanismo de evaporação não funciona, o calor se acumula nos tecidos e ocorre hipertermia, que são temperaturas acima dos 38,5 graus. Isso provoca fadiga, cãibras e até a intermação [síndrome do golpe de calor], que pode ser fatal”.

A FIFA propôs uma norma para que, quando passar de 31 graus, seja possível fazer uma pausa para reidratar e refrescar.