Arquivos diários: 16 de fevereiro de 2015
O ‘ouro negro’ faz a América Latina sofrer
Uma das novidades do Carnaval neste fim de semana no Rio de Janeiro são as máscaras com rostos de ex-executivos da Petrobras, “o orgulho do Brasil”, maior empresa do país, que foi arrastada para um fabuloso caso de corrupção e perdeu 40% de seu valor de mercado no último ano. A sangria da Petrobras nas Bolsas não se explica apenas pela desconfiança causada pelo roubo de bilhões de reais descoberto na operação Lava Jato. Outras petroleiras estatais do continente, igualmente fundamentais para a economia de seus países, se ressentem da queda na cotação do petróleo bruto, depois de o produto passar quatro anos relativamente estável, em torno dos 100 dólares por barril. Funcionários e políticos preparam ou já aplicam cortes para se adaptar a uma nova etapa motivada pela revolução do gás de xisto, que permitiu aos Estados Unidos se transformar no maior produtor mundial de hidrocarbonetos e se aproximar do objetivo de independência energética, causando um desabamento das cotações, dada a recusa dos países da Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP) em reduzir sua própria produção e aceitar uma perda de fatia no mercado.
A conjuntura restritiva, obviamente, não é exclusiva da América Latina. Das cinco maiores petroleiras do mundo, só a norte-americana ExxonMobil não teve resultados piores do que o previsto em 2014. O grupo anglo-holandês Shell, por exemplo, não obteve lucros na sua principal área de negócio, a prospecção. “Se o preço se mantiver abaixo de 50 dólares, uma parte dos campos vai ter necessariamente que fechar: sobretudo os não convencionais, que são muito caros, por sua durabilidade limitada”, explica o diretor de uma petroleira europeia.
Fonte: EL País.
O meteoro Eduardo Cunha
Bastaram duas semanas de atuação para que o novo presidente da Câmara dos Deputados exibisse o seu arsenal de atributos como caudilho, oligarca e cacique. Junto, mostrou como funciona uma blitzkrieg política em ambientes dominados pela inércia. Exemplo perfeito das virtudes do voluntarismo onde campeia a apatia. A supremacia da onipotência sobre a impotência, do mandonismo escancarado sobre desmandos sussurrados.
Führer típico, determinado, ídolo dos medíocres, aliado predileto dos pusilânimes. No mostruário de lideranças fornecido pela Revolução Francesa, situa-se entre Georges Danton, o demagogo audacioso e Joseph Fouché, o conspirador-manipulador, eterno sobrevivente, sacerdote capaz de fingir-se ateu para ganhar mais poder. Comparado com antigos parceiros como Collor e Garotinho, é um profissional padrão “Intocável”, tal como Daniel Dantas e outros ex-associados.
Eduardo Cunha é, neste exato momento, o político mais poderoso do país. Muito mais eficaz do que o partido que elegeu e reelegeu os dois últimos presidentes, mais safo e esperto do que o presidente honorário da sua agremiação e vice-presidente da República — com uma só cartada converteu Michel Temer em volume-morto e a presidente reeleita, a durona Dilma Rousseff, em figura decorativa.
Quando operava na esfera estadual metia-se em constantes trapalhadas, chegou a sofrer um atentado e foi acusado de fazer negócios com famoso narcotraficante. Carioca que joga pesado, não brinca em serviço, foi quem descobriu um erro na documentação eleitoral do animador Sílvio Santos e assim tirou-o da corrida presidencial.
Ao ingressar na esfera federal (2003), percebeu o alcance dos novos holofotes, mudou o estilo, guardou a metralhadora, passou a servir-se de fuzis de precisão — não errou um tiro. Em apenas 12 anos, foi alçado ao Olimpo. O ex-presidente Lula não ousa desafiá-lo: recomendou publicamente à sucessora uma reconciliação.
Forte candidato a converter-se no primeiro déspota parlamentar, símbolo das deformadas democracias representativas do século XXI que fundiram o corporativismo de Mussolini com um bolchevismo de direita, messiânico. Preside a Casa do Povo, mas não consegue esconder a forte vocação autoritária e o gosto pelo exercício do poder absoluto. Já passou por três partidos — PRN, PPB-PP e PMDB, este o mais “progressista”. Na verdade é um espécime legítimo da era pós-ideológica, conservador, populista que poderá até proclamar-se parlamentarista para mais rapidamente tomar o poder.
Sua adesão ao ideário evangélico e a obsessão em implementa-lo a qualquer preço, faz dele um exemplar calvinista. Como operador, porém, prefere a lógica do capitalismo.
A promessa de impedir qualquer tentativa de regulação da mídia (como deseja parte do PT), nada tem de devoção à liberdade de imprensa. Qualquer projeto que corrija distorções no sistema midiático, por mais leve que seja, passaria obrigatoriamente pela anulação de concessões de rádio e TV a parlamentares e pela proibição de cultos religiosos nas emissoras de TV aberta – largamente utilizados por confissões religiosas, especialmente evangélicas. Na última semana criou um comissariado para unificar a orientação dos diversos veículos da Câmara (jornal diário, rádio, portal e TV).
Além das obsessões e preparo físico, ostenta um desembaraço verbal de radialista, suficiente para não cometer gafes grosseiras. Engravatado, certinho, sem barba nem bigode, óculos leves, passa a imagem de confiável, protetor, bom vizinho, bom burguês, capaz de sonhar com rupturas, mas não com o caos. Numa coleção de dez fotos tomadas já na presidência da Câmara, cinco delas mostravam-no com a mão na boca, truque que até jogar de futebol apreendeu para não ser surpreendido por experts em linguagem labial.
Meteoro fascinante para acompanhar, preocupante como dono do poder.
Por: Aberto Dines, Colunista do EL País.
JUAN ARIAS: Merenda escolar não pode ser o bode expiatório da crise
Há coisas que podem ser discutidas; outras, não, porque roçam o terreno do sagrado. Por exemplo, a merenda tradicional que no Brasil é oferecida aos alunos do ensino fundamental nas escolas públicas, que, pelo que parece, começa a ser discutida em algumas prefeituras sob a desculpa de que as crianças pobres estão engordando demais.
Desde que cheguei a este país, há 16 anos, só escutei elogios a esse costume de oferecer às crianças do ensino fundamental nas escolas públicas uma alimentação que as livra de uma possível desnutrição.
Nas famílias em situação de extrema pobreza, essa foi durante muitos anos, e continua sendo nas regiões mais distantes, a única refeição completa do dia para essas crianças. Dessa maneira se conseguiu que no Brasil não houvesse, como em alguns países africanos, crianças com desnutrição grave.
Sempre se criticou neste país a baixa qualidade do ensino primário, mas também se elogiava essa prática alimentar que em muitas escolas chegou a ser aperfeiçoada com a contratação de nutricionistas, com a finalidade de oferecer uma merenda equilibrada.
Agora, segundo publicou o jornal O Globo, em 80 escolas da cidade de São Bernardo do Campo, no Estado de São Paulo, a merenda infantil começou a ser cortada por duas razões; porque havia “desperdício de comida” e para “prevenir a obesidade das crianças”.
A prefeitura que começou a tomar essas medidas não apresentou nenhum estudo convincente do tal perigo de obesidade que supostamente está à espreita das crianças, afirmam as mães.
As famílias estão em pé de guerra, e com toda a razão. Por que essa provocação, e neste momento? O Brasil entrou no caminho do corte de gastos públicos exigido pelo Governo para ajustar contas que extrapolaram os limites, precisamente, por excesso de gastos do poder público.
Era previsível que as famílias dessas crianças vissem logo segundas intenções nas desculpas para cortar a comida nas escolas.
Serão as crianças das famílias que não podem colocar os filhos nas escolas privadas – como fazem 99% dos políticos – as que vão começar a sentir a picada da crise?
Aguardam sentença nos tribunais, segundo me dizem, milhares de processos contra prefeitos e funcionários públicos acusados de “roubar”, no modo de dizer dos pobres, o dinheiro dessa merenda. Seria o caso de perguntar se entre tantos crimes cometidos pelo poder público pode existir algum mais grave, e que deveria ser castigado com dureza, do que o de manchar as mãos e a consciência com esse dinheiro sagrado que evita muitas vezes que tantas crianças tenham de viver e estudar com fome.
É duro quando falta comida entre adultos, mas nada como essa pontada da fome em uma criança, um pecado que não deveria ter perdão.
Se for verdade que existem escolas que desperdiçam comida, então, que sejam tomadas medidas contra os culpados; se em algum caso a comida oferecida às crianças for inadequada e puder produzir excesso de peso, que sejam feitos exames e se defina uma solução.
O que não se pode fazer é querer começar a efetuar cortes, solapando-as com base em desculpas que nem o mais analfabeto aceitaria como verdadeiras.
Se a já maltratada educação primária brasileira, que, apesar de ter obtido inegáveis avanços nos últimos 20 anos, ainda deixa muito a desejar nos rankings nacionais e internacionais, tivesse agora o acréscimo do crime de cortar o prato de comida das crianças na escola, estaria dando um perigoso e vergonhoso passo atrás.
O melhor é que, sem perda de tempo, sejam adotadas medidas para que não se enfraqueça esse maravilhoso costume brasileiro de que nenhuma criança assista às aulas com fome. Melhor deter essa tentação antes que possa contagiar outras escolas.
Nada mais triste para uma mãe que nem sempre consegue colocar em sua mesa tudo o que desejaria para seus filhos do que a suspeita de que em um momento de crise a intenção seja a de começar a adotar medidas de austeridade pelos mais pobres e frágeis.
Enquanto isso, essas mães ou esses pais veem impotentes o desfile a cada noite, nos noticiários da TV, da cada vez mais robusta lista de corruptos e corruptores embolsando centenas de milhões roubados. “Não consigo nem saber o que significam todos esses números juntos. É que eu me perco”, dizia há pouco tempo um pedreiro.
O que os menos afortunados não podem perder é a esperança de que seus filhos possam ter um futuro melhor do que o seu.
Juan Arias é colunista do EL País.
O toma Lá, Dá Cá!
O ex-diretor de Refino e Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa afirmou nesta sexta-feira (13), em depoimento à Justiça Federal do Paraná, que, durante o período em que ele atuou no alto escalão da estatal, nenhum executivo alcançava um cargo na diretoria sem “dar algo em troca” a partidos políticos.
Não se chega ou não se chegava a diretor da Petrobras sem apoio político. Nenhum partido dá apoio político só pelos belos olhos daquela pessoa ou pela capacidade técnica. “Sempre tem que ter alguma coisa em troca”, disse o ex-dirigente.
A declaração foi dada quando o juiz perguntou se o ex-diretor da área internacional da Petrobras Nestor Cerveró também recebia propina para viabilizar contratos entre a estatal e empresas estrangeiras. Ao responder, Costa ponderou que, dentro da companhia, comentava-se que Cerveró também recebia suborno para facilitar as contratações de seu setor.
“O que se comentava é que na diretoria internacional, que tinha apoio do PMDB e do PT, esses partidos teriam alguns benefícios. Pelos comentários internamente [o diretor Cerveró] também recebia [pagamentos]”, observou Paulo Roberto Costa.
Ao juiz federal, o ex-diretor voltou a dizer que recebeu US$ 1,5 milhão em propina para não criar entraves à compra da refinaria de Pasadena, no Texas, negócio sob suspeita de superfaturamento. Sem citar nomes, ele afirmou acreditar que outros diretores também receberam dinheiro. “Se eu recebi, possivelmente outros diretores receberam. Porque que somente eu receberia?”, questionou.
Investigado pela Polícia Federal (PF) na Operação Lava Jato, Costa fez acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal e tem colaborado com informações sobre o esquema de corrupção na petroleira.
Compra superfaturada
Em 2006, a Petrobras pagou US$ 360 milhões por 50% da refinaria (US$ 190 milhões pelos papéis e US$ 170 milhões pelo petróleo que estava em Pasadena). O valor é muito superior ao que foi pago um ano antes pela belga Astra Oil pela refinaria inteira: US$ 42,5 milhões.
Em 2008, a Petrobras e a Astra Oil se desentenderam, e uma decisão judicial obrigou a estatal brasileira a comprar a parte que pertencia à empresa belga. Assim, a aquisição da refinaria de Pasadena acabou custando US$ 1,18 bilhão à petroleira nacional, mais de 27 vezes o que a Astra teve de desembolsar.
Fonte: G1






