Isto Posto… A anarquia provisória do impeachment!
Oh! Processo de Impeachment estupendo este de Coração Valente! Com ele se instaurou uma anarquia, provisória, porém magnânima, entre os três Poderes da nossa incipiente e insciente República, na qual ninguém se respeita mais!… O STF dita a última trincheira da Cidadania, toda vez que se intromete no caso, em vez de solucionar um problema cria outros. Tomemos como exemplo a decisão que estabeleceu o rito a ser imposto ao processo de impedimento da presidente da república, no qual, atropelando a Constituição Federal, o plenário rebaixou a Câmara de Deputado, dita a Casa do Povo, e supervalorizou as prerrogativas da Casa Revisora que é Senado Federal.
Agora mais recentemente, novamente estuprando a Constituição que diz no seu artigo 53, § que recebida a denúncia contra o Deputado, por crime ocorrido após a diplomação, o STF dará ciência à Câmara Federal, que, por iniciativa de partido político nela representado e pelo voto da maioria de seus membros, poderá, até a decisão final, sustar o andamento da ação, o plenário da Suprema Corte, no jogo de vaidade que lhe é peculiar, dizendo o Direito ao seu modo, afastou, para deleite de todo cidadão brasileiro, das funções de Deputado e, consequentemente, de Presidente da Câmara, o “maquiavélico” Eduardo Cunha, abrindo espaço para a decisão tomada pelo presidente interino, Valdir Maranhão, de anular a sessão que autorizou a abertura do processo de impeachment no Senado.
Deste modo, jogando uma Casa Legislativa contra a outra, e criando um imbróglio somente resolvido pela rendição de uma das partes, numa clara afirmação de que as relações institucionais no Brasil só se dão mediante chantagem entre os três Poderes desta terra de Bruzundangas, aquele que deveria agir como poder moderador, ao invés de atuar como bombeiro, ateia gasolina ao fogo das vaidades golpistas alimentadas pelo Executivo e pelo Legislativo, enquanto a nação segue desenfreada para a bancarrota.
Isto posto, Oh! Processo de Impeachment estupendo este de Coração Valente!
Que anarquia, provisória, porém magnânima, essa entre os três Poderes da nossa incipiente e insciente República, na qual ninguém se respeita mais, pois impera a conspiração e a desobediência por parte dos intocáveis senhores mandatários da “ResPública”, em contraposição ao equilíbrio e a harmonia tão propalada!
Por: Adão Lima de Souza
Sobre que alicerce ergues a tua casa?
”(…) Até sermos acordados por vozes humanas. E nos
[afogarmos.” (Eliot, T. S. ‘A canção de amor de J. Alfred Prufrock’ )
No espaço luminoso da biblioteca, Cecília reorganiza os livros na estante. Quase fim de expediente. Raios cróceos invadem a sala e pousam sobre as estantes. Na seção de artes, devolve o livro sobre Duchamp. Em seus dedos, a sujidade das brochuras. A poeira do tempo.
Cotidiano. Cecília é erguida, às seis horas, pelo peso do hábito. Peso entorpecedor. Susto matinal, o despertador que toca. A alvura do teto – o mesmo de todos os dias. Banheiro. Cozinha. Chave. Porta. Um aceno para o silêncio da casa despovoada. Tráfego. Semáforos. Buzina. A estridência dos dias. Ao menos um lenitivo, o som do carro a tocar. Sempre o mesmo itinerário, as árvores invariáveis, os berros diurnais dos citadinos. A preocupação com o ponto a bater, hora certa, infranqueável.
Não a confrange, porém, o trabalho. Lá, onde o hábito perde a força. Desde criança, Cecília se deleita em meio aos livros. Cercar-se deles, por tal, representa pleno regozijo. Decepcionara a família, os seus planos grandiloquentes, seus projetos estatuídos sem a participação da própria incumbida. Contrafeitos, os familiares julgavam-na cruel, pois se já houvera aviso renitente: serás grande, doutora. Bibliotecaria, ora, que disparate!
A luminosidade nunca lhe chega cedo. Necessário enfrentar o desabrochar do dia, a sua repetição. De sorte que o dia sempre se inicia ante a escrivaninha, o movimento dos frequentadores, o arrastar de cadeiras. O seu paraíso – onde as pessoas sabem da possibilidade do sussurro, onde predomina o silêncio sem a necessidade do despovoamento. Os jogos de olhares, as intenções demonstradas sem ruído, os sorrisos que contêm grandes narrativas.
Dentre as inúmeras pessoas que vão até o seu balcão, sempre há as que, de algum modo, encontram espaço nas paredes de sua memória. Não precisa muito. Um mão que lhe dirija a carteirinha e um livro cuja admiração lhe é incontestável – apenas. Assim, conhecera Arthur. Passos comedidos, cabeça descaída, entregara à Cecília uma brochura pesada. Largo sorriso, o dela. Cinéfila, com que euforia não recebera Hitchcock/Truffaut: entrevistas! A fila a esperar, enquanto Cecília e Arthur falavam a propósito de cinema, da Nouvelle Vague, do Cinema Novo, de Glauber Rocha. Um dia inaugural, menos para Arthur do que para a bibliotecária. E, no entanto, ei-lo a prometer o retorno, a conversa posterior à leitura.
Retornara. Não poucas vezes. Cecília ainda mais aficionada pelo trabalho. As reminiscências eram suficientes para clarejar o dia, logo cedo. Mesmo o despertador não alcançava o susto de outrora. Da alvura do teto, fizera céu desanuviado, pintara sol com lápis de cor imaginativo. O amor. Evitava racionalizar. Conjecturar sobre essas questões do peito queria parecer-lhe bruteza, estupidez. Entregue, o alarde das buzinas chegava aos seus ouvidos como música – Bach, quem sabe?
Tudo é pretexto, Arthur recordava o que dissera seu amigo. Buscava coragem para ir ter com Cecília. Os livros já não se lhe apresentavam como desculpa suficiente. Impossível ler um livro por dia. Tanto mais impraticável apagar, de sua memória, o desenho do rosto de Cecília, a silhueta de seu corpo. Caminhava pela avenida principal da cidade. Pelas calçadas, mendigos desdiziam as mentiras espalhadas pelos outdoors, pelas falas do prefeito. Os discursos cândidos não lhes enchiam a barriga. Distraidamente, Arthur lançara uma moeda. Também ele queria esconder o próprio monturo? Um ato abstraído e um contentamento ao peito? Arthur, o arquétipo de citadino.
Como clarão que irrompe inesperadamente, enxergou, na parede, um cartaz divulgando a exibição de clássicos do cinema francês. Olhou para o céu, descrente, e agradeceu. O pretexto.
Tem pressa. Ultrapassa os passantes, esbarra em barracas. Segue. Pretexta:
– Cecília, um convite… – diz, ofegante.
– Boa tarde! – ri um riso gostoso.
– Vi, há pouco, que exibirão Jules et Jim. Será num tal cinema alternativo, até então desconhecido.
– Truffaut? – e ri novamente. Já assisti.
– Sim, supunha. Mas sempre é bom retornar aos clássicos. Para os cinéfilos, então…
– Tudo bem! – o riso ainda na boca.
Foram. Conquanto assistido pelos dois, o filme se lhes parecera inédito, inexplorado. Neste dia, Cecília dormiu tarde. Arthur lhe deixou em casa. Ao se despedirem, ele não suportou a covardia do abraço que podia não ser. Enlace. Cecília se revirava na cama, o cheiro dele invadindo o quarto. Seis horas. Toca o alarme e ela levanta para continuar o sonho – de olhos abertos.
Biblioteca. Arthur some por três longos dias. Impaciente, Cecília deixa de notar os títulos das brochuras que passam para empréstimo. Vê, unicamente, a cor das capas – neste instante, todas pariformes. Fim de expediente. Agora, a luminosidade faz-lhe lembrar do astigmatismo. Maldize-na. Do rádio, a voz de Ângela castiga: ‘Sua presença destrói todos meus desenganos/ Minha ausência causou-lhe uma série de danos’. Dado o seu queixume, invertia o último verso. Quão longe, aquela casa, guarida de medo e súplicas – contidas.
Arthur aparecera, como tudo que vive. Cecília refrea a objeção, quase a pular da boca. Ora, a expectação é sempre de quem ousa engendrá-la, torná-la táctil. Cecília sabia, pois que silenciara. Os cumprimentos corriqueiros, as mesmas perguntas iniciais e, novamente, um convite. Arthur queria conversar. Havia algo a ser dito.
‘És casado, Arthur? Por que me dizes isto?’ – sufocava a própria dor no peito. ‘Por que seria importante?’, castigava-se ainda uma vez. O sempre comedido Arthur, desconcertara-se. Seu corpo nunca coube em lugar algum. Bancário, protocolar, a vida nunca foi algo que lhe importara deveras. Sempre a calcular, mensurando o que se pode perder e o que se pode ganhar. Mas tem hora que falta pilha na calculadora, os números se embaralham e, ora, resta o coração. Num rompante, confia à Cecília seus desejos e sentimentos. Lembra Guido – conversa de cinéfilos – e reproduz o diálogo, por três vezes, com Dora. Cecília ri, embaraçada. As carnes se conversam.
Ei-la mais uma vez sorridente. Agora, de quando em quando, ao sair para o trabalho, acena não mais para o silêncio duma casa desértica. Uma outra mão lhe devolve o aceno, ao dizer-lhe, prazenteiro, ‘até mais, Dora’.
Porque morada de medo, Arthur, ante o encontro diário com a própria mulher, racionaliza o que sente por Cecília. Conversa com Miguel, seu amigo, e tem de escutar a dureza de quem dá eco ao coração.
– Arthur, estas coisas são assaz simples. Cecília é única, uma chance irrepetível. Com ela, todas as cidades aparentam Brasília. Que te importa o casamento de então, se jungidos pelo medo da vida, pelo conforto da segurança? Não te pareces inabilidade para o amor? Casaste, é verdade. Mas apenas uniram duas fortunas. Com Cecília, unirão duas indigências. A vida sem excrescências, acredite-me.
Impraticável o despejo de verbos ante ser empedernido. A pilha fraca da calculadora logo é substituída. Arthur vive numericamente. Relaciona-se como quem computa os lucros que poderiam ter sido, suas horas em dólar.
Miguel insiste. Lembra a leitura dum filósofo francês e assevera, procurando eloquência na voz:
– Surgindo-nos o amor, Arthur, necessário coragem. É preciso transpor os pontos de impossibilidade. Todos eles. Se te recusas à amar, terás que esperar por longos anos, até que apareça outro amor com a mesma força. Não, tolice tua. Não és capaz de esperar, não. Tua incapacidade forja aptidão inalcançável.
Irredutível, de nada serve o alvitre do amigo. Vai ao encontro de Cecília, quer encerrar, de uma vez por todas, esta estória despropositada. Aferira, assustara-se com a possibilidade do não-lucro – ‘mas se minha mulher me tem tanto amor’. Correr o risco – recordava Miguel: ‘Amor é risco, Arthur!’ – de ser menos amado, ter de enfrentar a insegurança, não tinha mais idade para estes disparates. 32 anos, veja lá! Mulher já em casa, guardada, direito adquirido. Que lhe importa o amor que não tem? Tudo é questão de costume – a insustentável leveza dos dias! Mesmo a boca de Cecília não vale a aventura de procurar viver a terra. Batia seu dedo nos botões numéricos da calculadora.
Cecília sufoca um choro. Conserva-se silente por algum tempo. Arthur quer ouvi-la, o silêncio lhe aturdindo.
– Arthur, compreendo-te. Cheguei em tua vida e, como no conto de Cortázar, fui tomando os teus cômodos. Quis te livrar da casa, teu abrigo aquecido. Pensei em te dar minha vida como quem, num rompante, lança mão de um convite para a vida mesma, em estado bruto. Tu, fustigado pelo frio que faz do lado de fora, foi reconstruindo o teu lar. Que hei de te dizer, Arthur? Reergueu a tua casa, bem se vê. Sabes, porém, que o alicerce dela é o medo?
Calado, a tudo escuta sem que simule uma mínima objeção. Escuta aquelas palavras e recorda outras, ditas por Miguel:
– Tens de perder este teu medo de ver cessado o medo, Arthur. Como explicar a tua fuga? Preferes permanecer em braços lânguidos à deixar-te levar ao encontro duma boca que te incute coragem?
Cecília, ainda aceso o peito, caminha por vielas outras, várias. Quer fazer, do seu amor, outra coisa que não espera e cansaço. Recorda Arthur, sua hesitação incontida – mesmo no ato do não -, suas conjecturas imperdoáveis. Miudezas. Rememora Borges, aquela brochura vermelha. Cada homem é dois? O desperto e o que dorme? Arthur nunca acordará – a injustificável distração ante a vida. Esta modalidade soberba do morrer.
Olha ao derredor. A confusão das ruas, as casas – abrigos de medo. Quantos Arthur encondidos pela cidade? Seus olhos transpõe as paredes. Nota uma sala, muito bem ornada. Num canto, um homem lê o jornal do dia, a xícara no criado-mudo. Noutro, uma mulher usa a ponta do dedo para menear o tablet. Grande silêncio. Entre os dois, Cecília entrevê o medo, o conforto, o torpor – essas vidas asfixiadas.
Outra vez, Arthur, este fantasma, penetra-lhe a cabeça. Névoa. Com seu riso irônico, Cecília faz parar um transeunte:
– Não sabes?
– O quê? – devolve, contrariado.
– Arthur morreu de segurança. Sufocado.
E ri o riso dos vivos.
Breno S. Amorim
STF julga hoje pedido para afastar Cunha
O STF (Supremo Tribunal Federal) deve julgar, hoje, uma ação proposta pela Rede que pede ao tribunal que afaste imediatamente do cargo o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).
O julgamento foi acertado entre o presidente do STF, Ricardo Lewandowski, e o ministro Marco Aurélio Mello, relator da chamada ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) apresentada pela Rede, e confirmado em sessão plenária.
O principal argumento da ação é o de que Cunha, por ser réu em processo no STF, não pode estar na linha sucessória da Presidência da República. Caso o vice-presidente, Michel Temer (PMDB), assuma a cadeira de Dilma Rousseff, o que pode acontecer na próxima semana, Cunha se torna o primeiro na linha sucessória.
O presidente da Câmara é réu no STF pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro sob a acusação de integrar o esquema de corrupção da Petrobras.
Devido às mesmas suspeitas, ele é alvo de outra denúncia, de mais três inquéritos na corte e de outros três pedidos de inquéritos que ainda aguardam autorização do ministro Teori Zavascki, relator da Lava Jato. As investigações apuram o recebimento de propina da Petrobras e o uso do mandato para supostas práticas criminosas.
Nos bastidores, ministros afirmam que a ação foi uma alternativa encontrada para a discutir a saída de Cunha do comando da Câmara, pedida pela Procuradoria-Geral da República em dezembro de 2015.
A peça apresentada pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, enfrenta resistências na corte, sendo que os argumentos jurídicos foram considerados frágeis para justificar uma intervenção grave, que seria tirar o presidente de um Poder. O receio, em parte do tribunal, era levar o pedido a julgamento e a peça ser rejeitada, o que poderia fortalecer Cunha na Câmara, onde é alvo de processo de cassação.
Segundo ministros, a tendência, no entanto, é que o STF aponte que Cunha não pode substituir Dilma ou Temer, em caso de afastamento ou ausência. Com isso, os ministros acreditam que diminuem a pressão sobre o tribunal pelo julgamento.
O ministro Gilmar Mendes, do STF, já afirmou ser plausível a discussão sobre a legalidade de um político que é réu em processo criminal poder figurar na linha sucessória da Presidência. Relator da Lava Jato, Teori Zavascki também disse que esse tema seria levado para deliberação da corte.
Na ação, a Rede sublinha ainda que a vedação ao presidente da Câmara pode se estender brevemente ao próximo na linha sucessória, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que responde a denúncia e inquéritos criminais no STF. Ele, no entanto, não é réu ainda.
O OUTRO LADO DO MENSALÃO: Aécio, Paes e Sampaio
O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) autorização para abrir um segundo inquérito para investigar o senador e presidente nacional do PSDB, Aécio Neves (MG), na Operação Lava Jato.
Também são alvos do mesmo pedido o deputado federal Carlos Sampaio (PSDB-SP) e o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB).
Os três políticos são suspeitos de terem tentado ocultar da CPI dos Correios, em 2005, informações sobre o suposto esquema de compra de votos em troca de apoio parlamentar na Assembleia Legislativa de Minas Gerais durante a gestão do ex-governador Eduardo Azeredo (1995-1999), o chamado mensalão do PSDB.
A CPI dos Correios investigou outro esquema de compra de votos, o mensalão do PT, que ocorreu durante o primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Isto Posto… De onde vem a força de Eduardo Cunha?
Pelo que se tem notícia o processo de Eduardo Cunha já é o mais longo da história. Já são noventa dias úteis o tempo em que se arrasta o processo de cassação do deputado acusado tão somente de ter mentido na CPI destinada a investigar os atos de corrupção na Petrobras.
Se olharmos de perto, pode-se ver que ali, não bastassem as muitas manobras do presidente da Câmara para protelar o processo, esconde-se também um forte empenho daqueles que fingem querer cassar seu nobre par, pois sempre agem no sentido de dilatar cada vez mais os prazos para que demore o suficiente as sessões da Comissão de Ética, holofote precioso para quem, como o relator deputado Marcos Rogério (DEM-RO), pretende se aventurar à candidatura de prefeito.
Essa sensação se comprova quando analisamos o tanto de testemunha convocada pelo relator para contradizer a versão do acusado, é quase uma dezena delas. E para quê? Senão postergar mais e mais o circo ali montado. Porque, vejamos, se a acusação que paira sobre o deputado Eduardo Cunha é de ter mentido na CPI sobre a existência de contas suas no exterior, este fato já está mais que provado, tanto que o Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, pediu o indiciamento do presidente da Câmara em denúncia protocolada no Supremo Tribunal Federal, onde até os dias de hoje se arrasta sem nenhuma esperança de desfecho nestes próximos tempos vindouros .
E a pergunta é de onde vem a força de Eduardo Cunha? O badalado parlamentar que vem se notabilizando por impor continuadas derrotas ao governo de Dilma Rousseff lidera a casta que os jornalistas se habituaram a alcunhar de “Baixo Clero”. Aquela expressiva maioria de deputados inserida no submundo do parlamento brasileiro que não costuma ter voz, já que os entrevistados da grande mídia são sempre aquela mesma meia dúzia treinada para lidar com câmeras e microfones diariamente. Basta ver os telejornais diários para nos depararmos com os mesmos sujeitos – seja da oposição ou do governo.
O Eduardo Cunha os representa com certa maestria. Por isso galgou o caminho que o levou à Presidência da Câmara, aproveitando-se do vácuo de poder deixado pelo seu partido PMDB e não preenchido pelo governo.
Por longo tempo, Eduardo Cunha foi festejado pelo PT como um dos mais brilhantes aliados no traquejo político para angariar votos favoráveis às proposições do governo petista quando a “tática de balcão de negócios” falhava. Somente a partir de 2013, a relação entre o Cunha e o palácio do Planalto começou a se deteriorar devido a uma jogada equivocada do governo ao tentar neutralizar a força do PMDB supervalorizando legendas como PP, PSD, PRB, PR e outros partidos versados na negociata.
Depois disso, o governo vem amargando uma derrota após a outra e tendo que assegurar a sobrevida de Eduardo Cunha sob pena de perder o único discurso que tem para reivindicar algum direito de permanência no poder central: o de que há um golpe em curso comandado por um político corrupto já réu no STF.
Isto posto, seria bom ver os dois tombarem abraçadinhos como sempre viveram.
Por: Adão Lima de Souza
Do que se foge, ao fugir?
“(…) E o que era medo, em desejo floresce.” (Dante, A divina comédia: Inferno)
Acordou eufórico, numa manhã de domingo. No lençol, uma poça se formara. Suava. Em sonho, dois olhos negros se aproximavam e, tão mais rapidamente, batiam em retirada. Com que susto abriu os olhos! Exausto, viu-se cercado pela alvura do teto. Letargo.
A inquietude dos dias possuía rosto e nome. Meses atrás, deparara-se com Sabina. Onde, precisamente, não recordava. Enfeitiçado por seus olhos, danou-se a segui-la. Necessitava nomeá-los, guardá-los, cravejados, na parede da memória.
Pequenina, cabelos longos, bochechas róseas, dois grandes olhos – ei-la refletida em sua memória. Relembrava aquele sorriso sublime, os dedos percorrendo o desenho da boca, enquanto, sobre a escrivaninha, um livro descansava semiaberto. As letras, no papel, pareciam-lhe embaralhadas, excessivas. Neste instante – vá entender o que atormenta um homem -, só uma coisa necessitava ser dita. Vocábulos demais, períodos demais, sintaxes disparatadas. O livro semiaberto.
Recordava Sabina, a sua confusão, suas hesitações, os seus verbos não conjugados.
Escrever é triste.
Quantas elipses para a não-palavra? Que lhes importam os anacolutos, nesse proferir de palavras aos pedaços? Catacreses pululam ante a inquietude que não lhes permitem calar.
Com o tempo, conversas, insônias, ânsias… Palavras. Ausências intermitentes. Horas pungitivas. Sabina, ao mostrar-lhe alguma possibilidade, sumia em seguida.
Palavras.
Nada se dizia com a carne.
Vocábulos.
Sabina refletia. Pensava em fugir, querendo ficar. Seus pés moviam-se por ideias turvas, tal qual alguém que, por alvitre próprio, inventa culpa e expiação – inconcebíveis. Embora pronunciasse a palavra fuga, Sabina não a queria, absolutamente. Ora, se, ante uma indiferença, alguém retorna ao estado anterior, como afirmar que a fuga é deliberada, e não reflexo de um medo? Sabina falava em fuga como se dissesse “prenda-me”, “estou a avaliar a tua covardia”…
Ele não desconhecia.
Via, nos mesmos dois olhos, o movimento convidativo, dançarina a soerguer a mão para um tango. Pareciam-lhe, porém, um tanto impiedosos.
E a vida, questão de urgência, permite a espera do que se nos afigura inadiável?
Os carros que passam, as balas disparadas, os cânceres em macas por entre os corredores de hospitais públicos… Até quando, a vida?
A árvore, outrora abrigo dos namorados casuais, fora arrancada. O homem retorna ao local. Nenhum vestígio de caule, raízes. Na memória, os beijos, as noites, o tugúrio de ontem. Até quando, a vida?
Ruminava ao percorrer ermas ruas. Sozinho, em meio ao estardalhaço, pensava em dividir solidões, fruir do que o ser abriga: seus medos, suas dúvidas, seus bramidos abafados.
Ensaiou um grito.
Não vingou.
Ao seu lado, pessoas corretíssimas calavam as suas podridões. Cada qual fora de si, jungido em demasia às aparências, na fatigante arte de dissimular enquanto se abotoa o paletó. Cadáveres que não se reconhecem.
E esta fuga, pensava, que não é fuga, não haverá de afugentá-la. Por reversão dos efeitos, Sabina poderia fazer, de sua debandada, um desertor. Não sabia ele se, diante de tanta fuga anunciada, desertar revelaria covardia ou cansaço. Perplexidade, de sua parte, não havia. Por muito tempo a procurar, tantas esquinas percorridas, sabia, pé batido no chão, que encontrara. Sabina lhe parecera a mulher que, em sonhos, desenhara certa vez.
Do rádio, uma música ressoava:
“Nunca te vi, sempre te amei…”.
O amor precedia a existência dos olhos, os traços faciais. Sabina apenas – e como é muito! – representava o arquétipo antes forjado.
De sorte que seus dias nasciam para equilibrar uma dúvida. Entre a força de agir e o cansaço da resistência, onde ele? Acovardar-se, esquecer a canção, rasgar o desenho? Soubesse ao menos com que traços rabiscar face nova. Não sabia. Um único quadro, apenas dois olhos diante de toda uma vida?
Que é feito das esquinas?
A dúvida.
O sol exsurge, cala-se.
O findar e nascer, contínuos, dos dias. Renitente irresolução. Será o final feliz deveras ardiloso?
Ainda silente, outro sol – e uma mesma indecisão.
Breno S. Amorim
“Me sinto injustiçada e indignada”, diz Dilma
A presidente Dilma Rousseff discursou no fim da tarde desta segunda-feira. Foi a primeira aparição e afirmações públicas depois de a Câmara dos Deputados aprovar a admissibilidade do seu processo de impeachment.
“Eu me sinto injustiçada. Injustiçada porque considero que esse processo é um processo que não tem base de sustentação. A injustiça sempre ocorre quando se esmaga o processo de defesa, mas também quando de uma forma absurda se acusa alguém por algo, primeiro que não é crime, e segundo acusa e ninguém se refere a qual é o problema. Eu assisti ao longo da noite de ontem a todas as intervenções, e não vi uma discussão sobre o crime de responsabilidade que é a única maneira de se julgar um presidente da República no Brasil”, afirmou a presidente, que voltou a reclamar sobre o que chama de falta de crime de responsabilidade.
“Eu não os fiz ilegalmente, não cometi os atos baseados em ilegalidade. Tenho certeza que todos sabem que é assim. Além disso, é muito interessante que contra mim não há acusação de enriquecimento ilícito. Por isso, me sinto injustiçada, porque aqueles que praticaram atos ilícitos e têm contas no exterior presidem a sessão e conduzem sessões importantes como a do impeachment de um presidente da República”, disse, se referindo ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).
No domingo, 367 deputados federais votaram a favor do prosseguimento do processo de impeachment contra a presidente (eram necessários 342 votos para que o processo de impeachment fosse enviado ao Senado).
Ao longo desta segunda, lideranças do PT e de partidos aliados deram declarações afirmando que a presidente não estava abatida com o resultado adverso.
O líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), afirmou que a presidente estava “otimista” em relação ao andamento do processo no Senado. “A presidente está otimista. É impressionante como o astral da presidente está de bom tom, animada e solidária”, afirmou Guimarães.
O líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE), chegou a dizer que o governo tem condições de reverter o resultado da Câmara no Senado e impedir o afastamento de Dilma, mas que o governo pagou pela falta de diálogo com a base governista.
“É possível se reverter [a decisão pelo impeachment] no Senado. Nesse primeiro momento, é um pouco mais difícil porque se trata de uma decisão de uma votação que a maioria simples define a posição do Senado”, disse.
O pedido de impeachment que foi aprovado ontem na Câmara chegou nesta segunda-feira ao Senado. Só depois de julgado no Senado é que Dilma poderá ser ou não afastada temporariamente do cargo até que o STF (Supremo Tribunal Federal) julgue o caso.
Lula: “ninguém foi mais vítima da Dilma do que eu”
Eu prefiro os Black Blocs
“Quem semeia miséria, colhe fúria.”
Anônimo, Pichação nas ruas de Paris (2006)
Eu vi uma enorme cerca erguida nos jardins do Congresso Nacional em Brasília destinada a separar os grupos contrários dos favoráveis ao processo de impeachment ali deflagrado.
Eu acredito na cerca levantada em Brasília, pois esta reflete o real estado de beligerância que este país precisa. Acredito naquele simulacro de “Muro de Berlim” como o marco de uma crise institucional apta a desencadear uma ruptura na política brasileira que venha a produzir alguma colisão de consciência capaz de transformar este num país decente.
Por isso, eu jamais fui a qualquer uma dessas manifestações, seja dos PTralhas, seja dos Coxinhas. Porque não acredito que pessoas caminhando, devidamente vestidas de verde e amarelo ou de vermelho, repetindo frases feitas consiga fazer qualquer tipo de revolução.
Eu só acredito nos Black Blocs, esta ação direta, de corte anarquista, empreendida por grupos mascarados e vestidos de preto, de estrutura efêmera, informal, não hierárquica e descentralizada, unidos para adquirir força suficiente para confrontar as forças da ordem e desafiar o establishment .
Por isso, eu prefiro os Black Blocs!
Adão Lima de Souza
Isto Posto… Que tal trocar o povo?
Parece que consenso capaz de contornar a crise institucional pela qual passa o Brasil é ainda uma miragem distante. De um lado, segundo pesquisa mais recente, temos como desejo de 79% dos brasileiros a convocação de novas eleições presidenciais.
No entanto, esse desiderato popular somente seria possível se uns dos dois eventos seguintes ocorressem: se Dilma e Temer, num momento de lucidez, num gesto de grandeza que os tornariam maiores do que jamais conseguirão ser para a História, renunciassem num ato conjunto, ainda esta semana, ou se o TSE, considerando que a quadrilha que achacava os cofres públicos sempre teve a anuência dessa dupla de malfeitores, ceifasse os respectivos mandatos antes do fim do ano, disparando, assim, na ocorrência de uma das duas hipóteses, o gatilho constitucional da nova eleição.
De outro lado, está o eleitor impaciente com a falta de rumo do país, conclamando, ao mesmo tempo, o impeachment de Dilma (61%) e o impedimento de Temer (58%), ou seja, a maioria (60%) se daria por satisfeita com a dupla renúncia ou a dupla queda.
Diante dessa possibilidade, para ser perfeito mesmo, bastaria que o Supremo Tribunal Federal decretasse, simultaneamente, a queda de Eduardo Cunha da presidência da Casa do Povo e a queda de Renan Calheiro do comando da Casa Revisora, já que ambos estão chafurdados no lodaçal da corrupção orquestrada pelos “PTralhas” e seus aliados “Coxinhas” de longa data, os mesmos que serviram de base de sustentação do governo liberal tucano e prontamente foram arregimentados pelos socialistas de araque.
Isto posto, se essa sugestão não serve para dirimir a controvérsia, resta tão somente, trocar o povo por um menos exigente. Daquele tipo que depois as manifestações de 2013, nas quais demonstrava profunda impaciência com a corrupção política, aquiescera a alma renovando os mandatos de todo tipo de sacripanta em 2014 e, com seu voto-consciente-de-torcedor conseguiu fundar um dos mais reacionários Parlamento dessa Nova República.
Por: Adão Lima de Souza







