Arquivos diários: 21 de abril de 2015

Sobre ratos e homens terceirizados

Xico SáQuando certa manhã o trabalhador acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto terceirizado, mais para roedor de si mesmo – um metafísico tísico decadentista! – do que para uma romântica barata da literatura.

Acordou em cama de faquir, diga-se, o que indicava também a volta da inflação alimentícia, no que o sujeito refletiu friamente: agora sou um servidor de dois patrões, como na comédia picaresca italiana, sirvo à dupla patronal e recebo salário como meio homem, eis a real da matemática financeira da modernidade trabalhista.

“Getúlio, Brizola, Lulaaa!”, ele gritou, em um pesadelo sebastianista recorrente. “Acorda, amor”, seu benzinho o confortou com um terno, e sem tesão algum, beijo na testa. Programa Tesão Zero, fome idem, longo casamento… A gente vai levando, a gente vai levando…

 “Seu terceirizado”, ele disse para si mesmo ao espelho do box do banheiro donde não havia sequer mais sombra de Narciso. “Seu terceirizado”, ele ouviu da sua própria mulher, que não havia dito nada, mas sabe aquela hora fragilizada que a gente escuta coisas da parede? “Terceirizado”, gritou o vizinho. “Terceirizado”, mexeram com ele na sinuca da esquina. O trabalho dignifica o homem, ele puxou essa do volume morto do cocoruto. A gente vai levando essa joça, viver é roça, ele se encorajou apesar de tudo e gastou o Bilhete Único como se fosse um luxo. O direito de ir e vir do nada para lugar nenhum. “O trabalho precário danifica o homem”, ele pensou direito, na volta para casa, mirando a rede que balançava sozinha na varanda nada-gourmet seu corpo de outrora, carteira assinada, rubrica decente, fundo de garantia, essas regalias que foram para as cucuias. “Que merda”, ele disse já pedindo desculpas à filhinha que não tinha nada a ver com seu infortúnio. Não tinha nada a ver, vírgula, o pai mirava a filhinha sob vergonha da sua trajetória, paranoia é paranoia, nada explica um surto psíquico de um terceirizado.

Onde ele passava, ouvia a ofensa. “Terceirizado”. “Melhor ser chamado de corno ou brocha”, ele sorria, elipsezinha no mar de verdades absolutas. Ele ia se conformando. O mundo de hoje em dia, dane-se. O café-com-pão-bolacha-não do trem suburbano era Bach para sua cabeça doida. Tentava. A gente vai levando…

“Se brincar vou na passeata de domingo acorrentado e puxado pelos meus dois patrões para gritar contra a corrupção”, meditou nosso amigo. Se brincar, refletiu mais adiante, eu colo no teflon da revolta dos que me lascam e bato panelas contra mim mesmo. “Não tenho mais nada a meu favor, só me resta o eco da desgraça”. Falou e disse.

É meu amigo, não se preocupem, bebi com ele até agora, estou próximo, não terceirizo amizade.

Xico Sá, jornalista e escritor, é autor de Big Jato (Ed. Companhia das Letras), entre outros dez livros. Na televisão, dá os seus pitacos nos programas Redação Sportv e Extra-Ordinários.

Isto Posto…Tiradentes: o heroísmo terceirizado!

TIRADENTESPensando na importância do dia de hoje, 21 de abril, dia de Tiradentes, o herói nacional, e considerando que o país vive envolto na discussão se afazeres empresariais devem ou não ser entregues a terceiras pessoas, dei-me conta de que, no Brasil, há muito terceirizamos nossas responsabilidades sobre os destinos dessa nação desnuda de roupas, pudores e inteligência.

Basta estarmos atentos às conversas despretensiosas, travadas nas filas de ônibus e mesas de bares para logo percebermos quão difícil é assumimos nossa parcela de culpa em tudo de ruim por que passa este povo de “índole pacífica e ordeira”, a quem quis o destino alcunhar de brasileiros em virtude não de precedentes históricos, mas pelo fenômeno pouco nobre do tráfico de certa planta nativa com a qual fizeram fortuna nossos inexcedíveis colonizadores.

Nestes momentos, distraidamente reflexivos, entre uma cerveja gelada e outra; ou em meio a indisfarçável vontade de proferir os mais indizíveis palavrões contra as companhias de transportes coletivos, quando nos entretêm as piadas a cerca da frágil moralidade dos nossos políticos, fazemos sempre um inventário de todas as mazelas que nos assolam a mais de quinhentos anos, maldizendo os homens públicos, porém, eximindo-nos da culpa pela crença inabalável de que, ainda hoje, o grande algoz do povo brasileiro é e sempre será o náufrago Pedro Álvares Cabral.

E, assim, com o jeitinho brasileiro que nos é peculiar, transferimos, ou melhor, terceirizamos responsabilidades que sempre foram de nossa conta, ao escolhermos outros como causa de todo infortúnio que se abate sobre tão divina terra.

Com o Tiradentes não fora diferente. Por isso, comemoramos neste dia seu heroísmo. Naqueles idos, em que a Coroa Portuguesa fazia a derrama com o ouro brasileiro, alguém precisava insurgir-se contra a voracidade com que reis gorduchos e bonachões, gulosamente, devoravam as riquezas da Terra de Vera Cruz, deixando à míngua os nativos, mão-de-obra terceirizada à disposição da Corte Lusitana. E quem encamparia tal desiderato senão um herói tupiniquim, forjado no labor e nas letras como  o insigne Joaquim José da Silva Xavier, alçado a patente de salvador da pátria em virtude da subserviência e velhacaria de outros patrícios mais condecorados.

E lá se foi o destemido “Dentista Prático” fazer tremular a bandeira da independência aos moldes Norte-americanos, reclamando para o bem geral os postulados do incipiente sistema republicano que eclodiriam na Revolução Francesa. Resultado: a Realeza decidiu ir à forra e o que era para ser uma luta pela independência se transformou, pela delação premiada de seus conterrâneos, num ato dito Inconfidência Mineira, na mais exemplar das punições, tendo o herói patrício o corpo esquartejado e posto à mostra em praça pública como símbolo real de intolerância aos atos de traição contra a Coroa Portuguesa.

Sendo a sentença nos seguintes termos:

JUSTIÇA que a Rainha Nossa Senhora manda fazer a este infame Réu Joaquim José da Silva Xavier pelo horroroso crime de rebelião e alta traição de que se constituiu chefe, e cabeça na Capitania de Minas Gerais, com a mais escandalosa temeridade contra a Real Soberana e Suprema Autoridade da mesma Senhora, que Deus guarde.

MANDA que com baraço e pregão seja levado pelas ruas públicas desta Cidade ao lugar da forca e nela morra morte natural para sempre e que separada a cabeça do corpo seja levada a Vila Rica, donde será conservada em poste alto junto ao lugar da sua habitação, até que o tempo a consuma; que seu corpo seja dividido em quartos e pregados em iguais postes pela estrada de Minas nos lugares mais públicos, principalmente no da Varginha e Sebollas; que a casa da sua habitação seja arrasada, e salgada e no meio de suas ruínas levantado um padrão em que se conserve para a posteridade a memória de tão abominável Réu, e delito e que ficando infame para seus filhos, e netos lhe sejam confiscados seus bens para a Coroa e Câmara Real. Rio de Janeiro, 21 de abril de 1792.

Daí, durante todo período colonial o alferes passou a simbolizar o anti-herói até ser resgatado pelos movimentos republicanos que, a cada nova investida ditatorial, lançava-o ora no Livro dos Heróis Pátrios, ora na mais ignominiosa das desonras, conforme a responsabilidade que se quisesse terceirizar.

Por fim, ante nosso gosto por terceirizar as responsabilidades que temos com nosso próprio destino, sempre nos furtando do dever de lutar pelo país que almejamos, ao invés de ficarmos sonhando com heróis facilmente matáveis, que tal nos perguntarmos, em coro Raul Seixas, “que culpa tem Cabral?”. E pararmos de culpar os outros.

Por: Adão Lima de Souza.

Oposição e empresários apostam que lei da terceirização passa na quarta

Congresso

Parlamentares da oposição que apoiam o projeto que amplia a terceirização exibiam confiança neste feriado: o adiamento da votação na Câmara, na semana passada — o primeiro soluço no ritmo frenético que Eduardo Cunha imprimiu à Casa — não passou de um susto. A aposta é que o texto final será aprovado entre quarta e quinta-feira sem perder o coração da mudança: a parte que possibilita que empresas terceirizem todas suas atividades.

Advogados trabalhistas afirmam que o texto, como está, não vai alterar a situação de insegurança jurídica de trabalhadores terceirizados, já que segue proibindo que os prestadores de serviços tenham vínculo empregatício com a empresa contratante. Já sindicatos e movimentos sociais argumentam que o texto “nivela por baixo” a situação do trabalhador, atomiza a representação sindical e os enfraquece na hora de negociar benefícios.

Eduardo Cunha, um dos participantes estrelas do fórum na Bahia, usou seu discurso principal no evento para defender a lei de terceirização. Disse que o Congresso tem que discutir o assunto e evitar que todo o conflito relacionado a esse tipo de contrato de trabalho seja tratado na Justiça. Ele citou ação no STF que julga se é constitucional vetar a terceirização em certos tipos de atividade, como ocorre hoje.

Cunha reagiu quando questionado se tinha forçado a mão para votar o projeto a toque de caixa. “Erro foi ter levado tanto tempo para esse projeto ser votado — há 11 anos está lá. Estamos só há 11 anos atrasados.” Ele assentiu, porém, que houve falha na estratégia de comunicação dos defensores do projeto — algo que não é responsabilidade dele, frisou.

Preocupado de que votação manche a performance de seu rolo compressor na Câmara, disse: “Não me cabe como presidente da Câmara fazer a comunicação do projeto. Aliás, eu não tenho compromisso com o conteúdo do registrado, eu tenho compromisso é com a votação”.

Fonte: EL País.

Serra rejeita impeachment e isola Aécio

No 1º duelo, Dilma parte para ataque a SerraEm palestra na Universidade de Harvard (EUA), o senador José Serra (PSDB-SP) disse que “impeachment não é programa de governo de ninguém” e defendeu que a oposição precisa ter responsabilidade.

“Impeachment é quando se constata uma irregularidade que, do ponto de vista legal, pode dar razão a interromper um mandato. E eu acho que essa questão ainda não está posta”, disse o senador.

A fala de Serra contraria o presidente do PSDB, Aécio Neves, que disse na última quinta (16) que a sigla pedirá o impedimento da presidente Dilma Rousseff caso se comprove a participação dela nas chamadas “pedaladas fiscais” –manobras feitas pelo Tesouro com dinheiro de bancos públicos para reduzir artificialmente o deficit do governo em 2013 e 2014.

As afirmações se alinham com as do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que no fim de semana afirmou que o pedido de impeachment depende de fatos objetivos e que seria “precipitação” abrir um processo neste momento.

Fonte: blog do Magno Martins.