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Relator entrega parecer pela cassação de Eduardo Cunha ao Conselho de Ética
BRASÍLIA – O deputado Marcos Rogério (DEM-RO) entregou nesta terça-feira (31) ao Conselho de Ética da Câmara dos Deputados o seu parecer e o voto favorável à cassação contra o presidente afastado da casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). O teor do voto só deverá ser conhecido oficialmente na próxima sessão do conselho, mas o jornal Folha de S.Paulo apurou com integrantes do colegiado que o relator deverá pedir a cassação do peemedebista. O presidente do órgão, deputado José Carlos Araújo (PR-BA), deve marcar uma sessão de leitura ainda esta semana.
O deputado Marcos Rogério afirmou nesta terça-feira que gostaria que as acusações contra o presidente afastado da Câmara não “fossem verdade”. Sem querer adiantar o conteúdo do parecer que apresenta nesta manhã – possivelmente a favor da cassação do peemedebista -, Rogério, em entrevista à Rádio Estadão, chegou a elogiar Cunha como presidente da Casa, mas afirmou que o acusado tem “um passado comprometedor”.
Rogério, que não quis antecipar sua posição para não “eternizar” o processo, voltou a afirmar que segue a decisão do presidente interino da Casa, Waldir Maranhão (PP-MA), que limitou seu escopo à acusação de que Cunha teria mentido à CPI da Petrobras no ano passado sobre a existência de contas no exterior. Com isso, ficam de foras questões como o suposto pagamento de propina ao peemedebista no âmbito da Lava Jato. “Para evitar que o processo se arraste, acabei adaptando. Mas estou levando em consideração um conjunto de provas. Farei menção ponto a ponto sobre o que ouvimos no processo. Meu voto não terá pegadinha”, disse.
O relator também assumiu que sofreu muita pressão de aliados e oposicionistas a Cunha nos últimos dias “Estamos numa casa política, você é abordado o tempo todo. Isso é normal. O que não considero natural são manobras para trancar o processo”, falou Rogério, mais uma vez sinalizando uma posição contra Cunha.
Dois lados
Rogério também afirmou que Cunha tem “duas faces”. “De um lado, é um personagem político de sucesso, que cresceu, é forte e respeitado pelos liderados e por outros. Colocou ordem na Casa, organizou muita coisa e fez a casa produzir muito”, destacou Rogério, fazendo comentário favorável ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff conduzido por Cunha.
“Por outro lado é um político com passado comprometedor. Ele não vai ser julgado por papel como presidente na Casa. Ele teria ampla margem de aprovação. Mas sobre o que cometeu como cidadão, que usava poder políticos para atos incompatíveis com o decoro parlamentar. Gostaria que não fossem verdade, uma ilação. Esse tipo de conduta depõe contra o parlamento”, disse Rogério.
Confiança
Em entrevista à Rádio CBN nesta terça-feira, Cunha voltou a se defender das acusações de quebra de decoro parlamentar. Ele reiterou que não é titular de conta que não esteja declarada no Imposto de Renda e que não mentiu à CPI da Petrobrás.
“O dinheiro, não o patrimônio, antes de ser transferido, me pertenceu. No momento em que foi doado ao truste, o truste passou a ser o proprietário do patrimônio. E mesmo se eu tivesse, a pergunta é se eu tinha conta. E conta eu não detinha”, disse.
Indagado se está preparado para o processo que poderá resultar na cassação de seu mandato, Cunha disse que pretende ser absolvido e que está confiante por não ter culpa nos fatos citados.
Governo não contabiliza número de estupros no Estado
O Brasil ficou estarrecido com mais um caso de estupro coletivo, desta vez no Rio de Janeiro, e debates sobre como combater, prevenir e empoderar as mulheres contra essa violência tem ocorrido em todo País. No último sábado (27), no Recife, a Marcha das Vadias denunciou que a nossa cidade, pouco iluminada e sem uma rede estruturada para o combate à violência de gênero, envolvendo todos os poderes, é um caminho aberto para insegurança das mulheres.
Os casos de assédio e estupro são quase que semanalmente relatados pela mídia, nas paradas de ônibus, nos terminais integrados, nas estações de metrô, nas ruas mal iluminadas, dentro das próprias casas ou em festas. Praticamente, em todos os espaços, a mulher, infelizmente, está vulnerável e sujeita à violência.
Nesse cenário denunciado na Marcha das Vadias, fui procurar os dados oficiais da violência de gênero, em especial, dos crimes de estupro no Estado. Para minha surpresa, descobri que inexiste um catálogo com essas informações.
O Governo de Pernambuco não revelou tais dados no Anuário da Criminalidade do ano de 2015, nem tão pouco, o boletim trimestral da criminalidade de 2016, ou seja, nenhum dado, estatística ou informação sobre a violência e os casos de estupro em Pernambuco. Apenas são contabilizados os CLVI – Crimes Letais Violentos e Intencionais.
As estatísticas da violência são fundamentais para, principalmente, orientar a administração quanto aos caminhos que deve seguir no planejamento, execução e redirecionamento das ações do sistema de justiça e prevenção. Além de ser direito das mulheres e da sociedade civil organizada, esses dados são necessários para cobrarmos, do poder público, medidas eficazes no combate à violência de gênero.
Com esse descaso do Governo, surge a pergunta: como o Poder Público vem orientando sua política na questão de gênero? Falta transparência, falta planejamento e sobra perigo e insegurança para as mulheres pernambucanas.
Por: Pedro Josephi, advogado.
Governo do Estado afirma que vai pagar mês de abril dos servidores nos próximos dias 7 e 8
A Secretaria de Administração de Pernambuco (SAD-PE) anunciou, nesta terça-feira, que os servidores ativos e inativos do estado só receberão o salário do mês de maio no quinto dia útil de junho, na próxima semana. Com isso, o dinheiro só vai cair na conta bancária dos beneficiados no dia 7.
O comunicado veio através de um nota oficial, divulgada hoje. “A Secretaria de Administração informa que o salário do mês de maio dos servidores do Estado será pago no próximo quinto dia útil do mês de junho, ou seja, o pagamento acontecerá no dia 07 de junho para todos os Ativos e Inativos e no dia 08 será para os comissionados”, informou o documento.
Além disso, o governo também comunicou que a tabela de pagamento será divulgada mês a mês. A mudança nas datas do pagamento já era esperada, uma vez que o governo estadual anunciou que, diante das dificuldades na arrecadação, só divulgaria o calendário de pagamento dos servidores até o primeiro quadrimestre, até maio, correspondendo ao mês trabalhado de abril. O aviso já havia sido dado em março.
Nova delegada do Rio garante: está provado o estupro coletivo da jovem de 16 anos
Cristiana Bento, nova responsável pelas investigações, diz que o vídeo e o depoimento da jovem já são suficientes para confirmar o crime.
RIO DE JANEIRO – A delegada Cristiana Bento, que acaba de assumir as investigações sobre a garota de 16 anos que foi estuprada na zona oeste do Rio de Janeiro na semana passada, afirmou que o crime está provado e que foi um estupro coletivo. “Quero provar agora a extensão desse estupro, quantos participaram”, disse em entrevista coletiva nesta segunda-feira. “Mas que houve [estupro], houve”, garantiu ela, que entrou neste domingo no lugar do delegado Alessandro Thiers para conduzir o caso.
Até o momento, foram identificados seis responsáveis pelo crime, entre eles, Raí de Souza, 18, que se entregou na tarde desta segunda para a polícia e seria o dono do celular no qual foi feita a gravação da vítima nua e desacordada, e Lucas Perdomo, 20, apontado como o namorado da vítima. De acordo com o site UOL, Perdomo foi preso em flagrante na tarde desta segunda em um restaurante no Rio de Janeiro. Ambos haviam prestado depoimento na última sexta-feira e liberados em seguida. As investigações agora seguem em segredo de Justiça.
Ainda não se sabe quantos efetivamente praticaram o crime. Os 33 apontados pela menor ainda não foram identificados pela polícia pois o vídeo e as imagens disponíveis até o momento só mostraram alguns dos estupradores. Mas a polícia admite que pode vir a provar que foram 33 pois um dos que exibiu o vídeo nas redes sociais narra que “mais de 30” passaram por ali, apontando para as genitálias da adolescente desacordada. “Houve estupro coletivo”, disse Cristiana Bento. “Mas não sei [praticado por] quantas pessoas”.
A delegada explicou que o vídeo da jovem nua, que foi divulgado nas redes sociais por alguns de seus algozes, juntamente com o depoimento da vítima, são as principais provas que confirmam o crime. O chefe da Polícia Civil, Fernando Veloso, que participou da entrevista nesta segunda, também colocou as imagens como principal prova do crime. “No vídeo há mais de uma voz no fundo, um cara toca e manipula a jovem desacordada. Isso é estupro”, disse. “Não há dúvida nenhuma”.
O exame de corpo de delito realizado na vítima não tinha como apontar quantas pessoas a violentaram, e também não registrou vestígios de abuso e violência física. Isso porque a jovem demorou cinco dias para ir à delegacia prestar queixa. Cristiana Bento explicou que de fato ela não iria prestar queixa caso o vídeo não tivesse vazado nas redes sociais. Isso porque ela temia morrer, como acontece com todas as mulheres vítima de estupro de traficantes. Após o crime ser noticiado pela imprensa, diversas teorias foram publicadas pelas redes sociais. Uma delas é que o chefe do tráfico de uma comunidade não permitiria que uma brutalidade como essas ocorra. Segundo Bento, essa teoria é infundada. Para ela, as garotas são, na verdade, vítimas do tráfico. “Os traficantes pegam as meninas e estupram. Eles não admitem é que outro o faça, mas ele faz”, disse. E não denunciam por medo de serem assassinadas.
Segundo Adriane Rego, do Instituto Médico Legal do Rio, a demora entre o estupro e a realização do exame dificultou encontrar provas. Mas isso não significa que o crime não ocorreu. “Não encontrar vestígios não significa que ela não foi abusada”, disse.
Bento também afirmou que o exame de corpo de delito não é determinante. Segundo ela, “produzir e distribuir cena com menor” já constitui o crime de estupro. E “se uma pessoa abusa, e a outra olha, ela é partícipe e vai responder pelo mesmo crime”, afirmou.
A delegada, que recebeu o comando do caso no domingo, disse que se debruçou sobre as investigações iniciadas pelo seu colega Alessandro Thiers na tarde de domingo até a madrugada desta segunda. A partir da leitura das provas coletadas até o momento foi deflagrada uma operação de busca e apreensão de seis suspeitos de participarem do crime.
Além de Raí de Souza e Lucas Perdomo, já detidos, outras quatro pessoas apontadas como participantes do crime seguem foragidos: Sérgio Luís da Silva Junior, conhecido como Da Rússia, conhecido como chefe do tráfico do Morro do Barão, onde ocorreu o crime, Raphael Assis Duarte Belo, Marcelo Miranda da Cruz e Michel Brasil da Silva. Os dois últimos publicaram o vídeo da garota desacordada e nua.
Polícia despreparada
As investigações correm sob segredo de Justiça desde esta segunda-feira. Mas antes disso, a condução do caso foi alvo de acusações de machismo e exposição à vítima, que agora, está sob proteção do Estado. Em entrevista ao Fantástico neste domingo, a jovem reclamou da maneira como foi tratada na delegacia ao prestar depoimento. “O próprio delegado me culpou. Quando eu fui na delegacia, eu não me senti à vontade em nenhum momento. E eu acho que é por isso que muitas mulheres não fazem denúncia”, afirmou. “Tentaram me incriminar, como se eu tivesse culpa por ser estuprada (…) Ele [o delegado que estava na condução do caso, Alessandro Thiers] botou na mesa as fotos e o vídeo e me falou ‘me conta aí ”, disse. “Ele perguntou se eu tinha o costume de fazer isso, se eu gostava disso. Aí eu falei que não ia mais responder”.
A postura do delegado fez com que a então advogada da vítima, Eloisa Samy, pedisse seu afastamento do caso, o que ocorreu no domingo. A Polícia Civil solicitou que a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Rio acompanhasse as investigações. A instituição elegeu Breno Melaragno, presidente da Comissão de Segurança, para o trabalho de acompanhamento. A pedido da família, Samy também deixou o caso.
Nesta segunda-feira, o jornal Extra publicou supostas conversas via WhatsApp feitas por Alessandro Thiers em que ele desqualifica a vítima, afirmando que não houve estupro, e que o vídeo divulgado é antigo. Perguntado sobre as supostas mensagens, o chefe da Polícia Civil Fernando Veloso disse apenas: “quero crer que ele não fez isso”.
Antes da coletiva, Veloso havia afirmado ao Fantástico neste domingo que o resultado da perícia do vídeo trouxe repostas que podem “contrariar o senso comum” formado pela opinião pública em relação ao caso. A frase chegou a gerar dúvidas se a polícia teria outros detalhes que viessem a incriminar a jovem. Mas, a operação de busca e apreensão deflagrada na manhã desta segunda na casa dos suspeitos mostrou que as investigações ainda estavam em andamento.
Manifestações
A jovem de 16 anos afirmou ao Fantástico que está sofrendo ameaças e julgamentos, inclusive de mulheres. “Muitas mulheres disseram que eu procurei [os suspeitos de estupro]”, disse. “Ninguém pensa ‘poderia ser comigo”.
Por outro lado, diversas manifestações contra o crime estão ocorrendo. No domingo, houve marchas ao menos em Brasília, Porto Alegre, Boa Vista contra a cultura do estupro. Em São Paulo, uma manifestação está marcada para acontecer nesta quarta-feira na avenida Paulista. Ainda no domingo, a ministra e vice-presidenta do Supremo Tribunal Federal, Carmen Lúcia, escreveu uma carta onde classifica o caso como “inadmissível”, “insuportável” e “inaceitável”. Diversas ativistas se manifestaram publicamente nas redes sociais.
Um homem
“A hora de partir soou para mim.” (Mallarmé, Stéphane. ‘Ele deixa a câmara e se perde nas escadas’)
A casa semidespovoada. Uma rede, geladeira pequena, escrivaninha e cadeira. Alguns livros espalhados pelo piso. O grande silêncio de quem divide a própria solidão consigo. Não há espelho. Há muito não vê o próprio rosto. Tateia os traços faciais no afã de reconhecer o rapaz de tempos outros, longínquos.
*
Como nasce um personagem? De que ventre, com qual ato de amor ou rompante? Decerto, não surge duma caneta, folha esbranquiçada, ociosidade. Todo personagem é táctil, carrega as dores cotidianas, tem sangue. Grita, ama, desama, mata, morre. De onde brota esse desdobramento? De um desejo sufocado, duma inaptidão? Dizemos “tal personagem sofre”, porque já não podemos desencobrir nossa ferida? E, no entanto, não é de todo desconhecido, uma vez parido, ganha vida própria, reclama livre-arbítrio. Apontamos dado caminho; ele, ao revés, desdenha do alvitre, segue por outra vereda, abisma-se por entre ruas desconhecidas. Que é um personagem?
Algumas tribos australianas têm grande cuidado com o nome. Se tal for semelhante a uma palavra e o seu dono morrer, ela acabará supressa, substituída por outra. Necessário, está visto, precaução. Com o designativo particular, afugenta-se o algoz, inscreve-se no músculo bombeante de alguma moça, assina-se a obra interminável. Joaquim, ei-lo.
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“Um ser humano é um ser humano”, lê, força na voz, caminhando dum lado para o outro do parco espaço. Repete. Torna a repetir: “Um ser humano é um ser humano”.
Todo homem tende a tornar-se misantrópico. Quem não já lamentara a desdita de não ter nascido Raskólnikov? Com que medo aquele senhor refreara a ânsia do rapaz de outrora, que pensava ser Zaratustra? Ir ao pináculo, a cidade estrepitosa deixada para trás, encontrar consigo próprio, poder gritar sem o auxílio da almofada, longe dos homens, nunca mais a palavra…
Por isso, esta casa, esta rede, esta geladeira miúda, estes livros espalhados, a escrivaninha pequena, a cadeira desgastada. Por isso, a casa semidespovoada, o silêncio inarredável… Por isso, Joaquim, a sua solidão, o homem que é homem sem atavios, penduricalhos.
*
O que caracteriza a fuga? Quem foge, foge de quê? Deserta quem parte, não quem fica? A palavra ativa uma óptica. Diz-se e fica sendo – apenas para quem fala. Do outro lado, talvez não haja sequer ouvido atento. Aquele que pronuncia pensa ter mudado o mundo, a ordem das coisas, nomeado algum fragmento do inapreensível. A ele, no entanto, a indiferença de quem já não mais escuta, de quem, também, pode falar e que, por tal, não compreende. Cada vocábulo é uma sentença – para a boca que o enuncia. Para o destinatário, confusão, excrescência lançada num desvão.
Joaquim repassa, na memória, os muitos sons emitidos em sua direção. Enquanto caminha, vozes resolutas intentam mostrá-lo o disparate de seus passos, a impertinência duma cabeça repleta de quimera. “Pudera, essa ociosidade acabaria em tolice!”, diziam os que lhe queriam bem. “Largar tudo, sequer um olho a esguelar-se para trás… loucura, ingratidão.”
Os que nos querem bem não nos querem bem. No velório central, assassinos choram a morte de assassínios seus. As mãos sempre ao peito, a cabeça baixa, a fala mansa, sempre solícita. Os que nos querem bem nos matam com a vida imposta, o beco sem saída. Joaquim, desgastado pela ladainha diurnal, não desconhece. Os mortos, estes que vivem, não descansam. Querem levar-nos aos seus túmulos, servir-nos chá, falar do tempo, dos gols da rodada. Os mortos teimam, estão nem aí para as flores dos vivos. Buscam desalumiar a cidade por completo, as praças, o fulgor das esquinas. Os mortos não morrem.
*
Apenas Adélia era afago. Ela, unicamente, a possibilidade do inimaginável. As conversas de fim de tarde, as mãos de Joaquim nas coxas de Adélia, os beijos chamejantes, as pausas para o suspiro. Ais.
Mas Adélia partira. Também ela persuadida a viver a vida protocolar, exangue, a caminhar por entre as mesmas ruas de sempre – a previsibilidade dos dias. Adélia tinha preço, vendera-se barato. Joaquim decepcionado, sua fagulha única tornada em nada, a silhueta que se desfazia – pariforme.
Com que punhado de dor pode um homem aprender a ver, a tornar a si? Quem foge, Joaquim? Tu ou os teus, com as suas cartilhas de vida?
Estamos sempre sós. Duchamp desentende-se com os cubistas, segue sozinho, engendra noiva despida por celibatários. Na parede, Joaquim observa a reprodução da obra, a confusão dos traços. Tem de ser só, compreende, contar apenas consigo próprio.
Lembra o café – fervendo.
*
Falta-lhe vocação para santidade. Não quer ver do alto, como quem se apercebe acima de todo o resto. Sabe-se parte do monturo, conhece as flores desabrochadas na planície.
Tampouco olvida a lição freudiana, não representa o tal eremita. A realidade, esta combinação de falas e percepções, não é sua inimiga, o lugar de onde promana todo o seu sofrimento. Não. Se rompera com alguns laços, nada houvera com o que chamamos realidade. Agora mesmo, essa criança que, sentada ao chão, come restos de comida, achados no lixo, é-lhe táctil, sensível. Teus três recursos para amainar o peso da vida, Freud, de nada servem a Joaquim.
Não o envolve a ciranda da felicidade. Pelas calçadas, a correria de quem quer ser feliz – e paga por isso. Acordam cedo, o beijo no filho deixado na escola, pontual no trabalho. Só bem tarde regressar ao lar, reencontrar a criança, beijá-la novamente e perguntar pela tarefa do dia. Aos sábados e domingos, a felicidade, o riso de quem se sente em dia com a vida.
*
A cidade é dual: desencontro e colisão.
Cartazes na parede informam a Joaquim sobre a sucessão dos dias, fazem-lhe participar do entusiasmo dos citadinos despersonalizados. Espetáculo de teatro, Companhia Andante. Show da banda Rockstar. Aprenda a cozinhar com a sra. Rosa. Aprenda inglês em poucos meses. Madame tudo vê traz seu amor de volta – com vida. Culto de jovens às 18h30min. Dentre todos, um arranca-lhe riso excessivo: Vença você também: novas turmas em maio.
Observa. Na praça em frente ao fórum, senta num banco envolto por uma quaresmeira. Lindas mulheres para lá e para cá, seus saltos altos, os cabelos serpenteados, seus perfumes adocicados.
Entre um e outro passante, a azáfama. Os pedestres imitando os carros, rivalizando com eles. Joaquim repara num grupo de senhores. Todos engravatados, pastas na mão, com algum ar de satisfação – incompreensiva. Diverte-se. Imagine, fosse aderir ao desejo dos familiares e amigos, bem poderia estar ali, em meio aqueles senhores. Também envaidecido, o peito a inflar-se? Tenta imaginar a vida daqueles senhores, os seus diálogos. As lições de linguística na mente, acredita: “Para eles, ainda o lado ingênuo da tradição gramatical do ocidente, ainda a tolice de crer numa relação de essência, a palavra cadeira desde sempre identificada no objeto para assento”.
Ao seu lado, senta uma colegial. Cabelos negros, olhos esverdeados, face lívida. Retira da bolsa um livro e um estojo de óculos. Joaquim, de soslaio, tenta alcançar o título gravado na brochura. Os conjurados, Jorge Luis Borges.
– Dê-me licença, quantos anos tem a senhorita?
Tinha 17, último ano de escola. Joaquim lembrou da leitura de Kundera: cá, a percentagem de inesperado.
– O nosso triste costume de ser alguém…
A mocinha sorriu, timidamente. Era do próprio Borges, quarto poema do livro. Tríade.
– Também hoje é dia do patíbulo, da coragem e do machado.
Despede-se.
Breno S. Amorim
Relator já admite pena mais branda para Cunha
O relator do processo contra Eduardo Cunha (PMDB-RJ) no Conselho de Ética, Marcos Rogério (PDT-RO), já admite uma punição mais branda para o peemedebista.
Ele tem recebido apelos de aliados de Cunha para uma solução na qual o atual presidente afastado perca seu cargo, mas não o mandato.
A esses emissários, Rogério tem dado sinais positivos.
Ele diz que, evitando a cassação e suspendendo o direito de Cunha exercer cargo na Mesa, será mais fácil aprovar seu relatório.
Lóssio afirma ter seis nomes como pré-candidatos
O prefeito de Petrolina, Júlio Lóssio (PMDB), afirmou que pode escolher entre seis nomes o seu candidato à Prefeitura no pleito deste ano.
Sem citar os nomes, Lóssio fez questão ressaltar as características dos seus pré-candidatos. “Um tem o melhor IDEB do estado, melhor que 20 capitais. O segundo tem o melhor programa de saúde, a segunda maior cobertura de PSF e redução da mortalidade infantil. O terceiro tem uma atuação espetacular na educação e agora na ação social. O quarto é um grande articulador na secretaria de governo e equilibrou as finanças da Prefeitura. O quinto articula-se bem politicamente, é um case de sucesso na área irrigada, prefeito da cidade duas vezes e assume agora pela federal. O sexto iniciou como gerente, virou diretor, depois superintendente, e como secretário fez o maior programa habitacional da história de Petrolina”, pontuou Lóssio.
Segundo o prefeito, tudo na vida tem que ter um pouco de vocação. “Eu estou querendo saber dos novos pré-candidatos quem é mais vocacionado para o momento, porque todos foram bons secretários”, declarou. Ele ainda fez questão de mencionar a importância de ouvir a população. “Eu podia ter 90% de avaliação positiva, se eu escolher um candidato que não esteja antenado com os anseios das pessoas a gente perde a eleição”, concluiu.
Fonte: Blog do Edenevaldo Alves
Para quem representamos?
”Minha existência começava a me espantar seriamente. Não seria eu uma simples aparência?” (Sartre, Jean-Paul. A Náusea)
A invariação dos dias. Constância. Todos buscam despertar tal qual antes. A mesma certeza. A segurança dos frutos colhidos. O imutável da ordem frasal. Que ninguém ouse revirar as palavras lançadas! As manhãs estertoram ante o traço redesenhado. Todos felizes. Invariavelmente felizes. Não mais o passo incalculado, a surpresa da rua seguinte. Percorrem caminhos de ontem.
Dores sufocadas.
Grunhidos.
Gritos inaudíveis. Necessário manter o emprego, o ponto a bater. Pois que inconteste as necessidades cotidianas. Perenais. Pela manhã, o pão. O bom dia ao padeiro. A troça invariável. Horário de almoço. O adeus curto aos colegas de repartição. Dormir cedo. Contar as horas de sono. Recomendável oito, sempre oito. Aos sábados, lavar o carro. Ainda assim, o vangloriar-se. Gabar o compromisso diurnal, hebdomadário. Cumpridor. Prudente.
Despertador infalível. Acordar adormecido. Ao lado, a mulher. Mesma posição. O ‘te amo’ irrevogável. Maquinal. Inexiste a dúvida. Irresolução alguma. Qualquer. Sequer um tropeço. Pedra sobre pedra. As conhecidas irregularidades do solo. Jamais o conserto. Alteraria a disposição dos dias. Perturbaria. Cada qual com a ciência dos movimentos cotidianos. Alterados, o choque. A dor. Que não se acenda ferida! Tanto melhor o lenitivo.
A fuga de si, do outro. Subterfúgio.
Vez ou outra, a comunhão. O cálculo ante o outro. Loquazes, a palavra salvaguarda. Intactos. A fala direta feriria. Dor, não. A publicidade anuncia um mundo sem aflição. Seguros, em doze vezes – prorrogáveis. Passam ônibus – fantasmagóricos. O itinerário infranqueável. A corda a puxar. Mesmo ponto. O abrigo com função social. Onde racionalizar. Tornar a dúvida vã. Retornar ao estado anterior. Dificílimo abandonar a lareira, a família, a espessura do móvel, os sacros valores. A continuação dum malogro.
Para quem representamos?
Breno S. Amorim





