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A CONSTITUIÇÃO É O NOME DE QUÊ?

A constituição não é um significante primeiro, mas deve ser considerada como tal na medida em que instaura um campo de ações linguísticas possíveis. Aqui já se aponta para o caráter performático da constituição. A perfomatividade não pode ser confundida com um gesto vazio, mas como abertura de mundos possíveis. A constituição, como livro, para lembrar Heidegger, já é um vir-a-ser-mundo.

A constituição não se reduz a uma forma lógica desprovidada de materialidade. Há muito se tenta equacionar a relação entre normalidade e normatividade. Se toda normatividade implica na criação de esquemas e categorias, no rastro delas, está a constância de certos fatos, portadores da normatividade. A normatividade ancora-se na faticidade. Essa relação transporta-se para dentro da normatividade que, imbuída da faticidade, não se mumifica numa racionalidade abstrata e a si, num céu de conceitos a priori, nem também se dispersa a ponto de uma facticidade qualquer ou construída falaciosamente possa corroer a tessitura textual e intertextual do direito.

A faticidade juridicamente relevante é aquela que a normatividade agasalha, não uma suposta opinião publicada por órgãos de imprensa comprometidos com as classes dominantes. A dialética entre norma e fato não deve ser operacionalizada para que haja uma corrosão do texto nem para produzir uma normatização apócrifa dos fatos, como diz Müller, mas, para permitir que o trabalho do texto, que se dá no insterstício do sujeito e do objeto, se produza superando os obstáculos hermenêuticos numa espiral interpretativa voltada à produção de sentidos partilháveis no comum.(29)

A constituição como evento se revela como poesia, isto é, como indicação não de um dado naturalizado, mas como abertura a mundos possíveis. A constituição, como ato simbólico, é a tentativa de superar contradições, por isso, não se enrijece em significados fixos nem se dispersa em sentidos frouxos, mas abre um campo analógico em que a luta pelos sentidos se produz.

Manter acessa a gênese da constituição é crucial para preservação do sentido literal possível. Na medida em que o texto se produziu no trabalho coletivo e social, nele mesmo, na sua visibilidade mesma, está presente a luta de várias gerações, lutas tingidas de sofrimentos intensos, de gritos e martírios do povo, das ‘raças’ lançadas em zonas de não ser. Como ler a constituição sem ver no seu rastro as expectativas frustradas dos povos negros e indígenas? A constituição não encobre o outro, mas, por força da instauração de uma discordância concórdia, permite que o outro negado mostre seu rosto histórico. É o seu sentido. Não obstante, a colonialidade do poder impede que a constituição seja, como diz um escritor edificante, um novo começo. De que começo se trata? Existe um começo? Como falar de começo sem atentar para uma tradição fundada na exceção e na violência? Como falar de começo sem atentar para a necessidade de remover os obstáculos hermenêuticos ao fazer da Constituição?

Na modernidade periférica, fendida em espaço de ser e espaço de não-ser, a igualdade, mesmo a formal, não se concretiza, e uma antinomia gritante se apresenta: a declaração formal de igualdade e práticas violentas de exclusão territorial, física e simbólica. Eis uma antinomia que mostra o nosso começo: nos territórios nutridos pela mais-valia, a lei; nos territórios explorados, a violência mais bruta.

A colonialidade, diz Fanon, compartimenta o espaço, grava os seres de acordo com a cor da pele, submete-os a uma exclusão perversa e não demonstra racionalidade: é um exercício de poder no estado bruto.

É preciso retomar com vigor a ideia de Müller de que a textificação é faca de dois gumes que pode ser canalizada tanto para a colonização dos sentidos quanto para construção correta dos sentidos sempre aberta à alteridade. Como interpretar o enunciado de Muller de que os textos se vingam? Invocamos aqui Engels, discípulo fiel de Hegel, que, no Anti-Durign, afirma: “Os proletários colhem a burguesia pela palavra: é preciso que a igualdade exista não só na aparência, que não se circunscreva à orbita do Estado, mas que tome corpo e realidade, fazendo-se extensiva a vida social e econômica.” (30)

Colher a constituição pela palavra significa estabelecer uma relação dialética entre experimentação e interpretação: instaurar, lembrando André Jean-Arnaud, uma prática jurídica social entendida como a ‘’atividade social que, quando confrontada ao processo de produção material e ao princípio de luta de classes, procura transformar as relações sociais regidas pelo direito em vigor.”(31)

Se a colonialidade se opõe à emergência do trabalho do texto enquanto instância que se exprime para além do subjetivismo e do objetivismo, devemos repetir o gesto de Espinosa. No tratado teológico-político, diante da apropriação privada da interpretação bíblica, instaura um conflito de interpretação (32) ao criar um método que permita a qualquer um encontrar, no trabalho do texto, o falar comum em que se estriba a produção dos sentidos.

O processo de interpretação e o processo de controle da aplicação do direito não pode ser limitado às instâncias de poder que, não raro, desgarram-se da razão comum e necessária, sobrecodificam sentidos hegemônicos sobre o texto.

Neste cruzamento, o direito é interpelado pela política. No Brasil, é preciso, mais do nunca, insistir na distinção, desenvolvida com Jacques Ranciere, entre poder e política. Existem duas formas de contar a comunidade. A primeira só conta os grupos construídos e erigidos por diferenças de nascimento, raça e gênero, e de funções e lugares que constituem o corpo social. A segunda envolve a parte de parte alguma, a inscrição política dos não contados (33). O poder colonial é uma engrenagem do primeiro tipo. Nessa lógica, os lugares estão previamente determinados pela ascendência de forma que toda a institucionalidade é parasitada, vergando-se aos interesses das classes dominantes.

A assertiva de Umberto Eco de que um texto quando se desprende das condições de sua emissão flutua no vácuo  é errônea. Primeiro, porque um texto sempre traz junto a si, ainda que de forma tênue, rastros das condições em que foi gestado. Segundo, porque todo texto, ao ser emitido, entra num horizonte indeclinável que determina e condiciona a sua recepção. Abundam exemplos na literatura. A obra-prima Grande Sertão: Veredas, que criou um novo idioma dentro do próprio idioma, foi recepcionada como uma mera novela picaresca de bandos de desordeiros em conflitos. Avalovara, de Osman Lins, é tão inovadora que é até hoje, absurdamente, ignorada. É nessa problemática que surge a teoria literária da recepção.

A estética da recepção, como corrente literária, busca justamente compreender o modo como um texto produz seus efeitos não num sentido mecânico como a palavra possa sugerir, mas como o texto, na medida mesma em que estrutura de forma a priori sua própria leitura, cria mundos. O fato de a estética da recepção ter enfatizado a importância da subjetividade na recepção do texto não sucumbe ao psicologismo nem confere importância exagerada à subjetividade que, supostamente, seria o alfa e o ômega da interpretação (34).

Os efeitos do texto são prefigurados pelo próprio texto ainda que a participação da subjetividade que o recepciona seja decisiva nesse papel. Não bastasse isso, nenhuma leitura ocorre fora da mediação de um horizonte de expectativa no qual os textos vão se deparar e ou brilhar na sua grandeza ou, muitas vezes, naufragar tristemente. Quantos autores geniais criaram obras que, de tão ricas, foram incompreendidas? Outras quantas de tão desafiadoras, de forma silente, foram censuradas?

Gadamer define horizonte como o âmbito de visão que abarca e encerra tudo o que é visível a partir de um determinado ponto. O conceito não é satisfatório porque incide num espontaneísmo que ignora o influxo das lutas políticas e das lutas pelas palavras no embater social e que, no fundo, as grandes lutas de classe é o desacordo acerca da percepção da realidade. Karatani quando criou o conceito de Paralaxe quer mostrar que os conflitos de interpretação já demonstram que o real é um topos em que o futuro das formações sociais se desenha e se desenrola (35).  O próprio conflito de interpretação revela a não coincidência do real consigo mesmo e a abertura mesma dos possíveis. Podemos definir horizonte como regime de visibilidade e de invisibilidade instaurado pelas relações de forças que integram qualquer formação marcada pelas lutas de classes. O horizonte de expectativa define, de forma prévia, o que é visível e o que é invisível.

Muitas vezes o regime de invisibilidade é de forma sutil; outras, de forma violenta. Tudo com o escopo de impedir a elucidação das formas sociais e das mazelas que lhe são evidentes. Nessa cumeada, qual o horizonte de expectativa das constituições na América Latina? No que aqui importa, releva que as constituições latino-americanas são refertas em direitos sociais, criaram um sistema protetivo do trabalho e seguridade social ampla envolvendo previdência social, saúde e assistência momentânea até o debelar, por políticas públicas, da pobreza e das condições miseráveis em que vive, infeliz e tragicamente, parcela relevante de latino-americanos como nós num continente de riquezas inestimáveis. Como tais constituições são recepcionadas em países em que o conceito de nação é restrito às oligarquias brancas com a exclusão, mediante permanente estado de exceção, dos povos que nos formam, constitui problema fundamental?

Ocorre que tamanha projeção generosa se depara com uma montanha íngreme- a colonialidade do poder- cuja superação requer o esforço descomunal de várias gerações. A colonialidade estabelece várias divisões desde a divisão entre o trabalho manual – que é, erroneamente, objeto de desprezo e o trabalho intelectual: ocorre a racialização das atividades manuais; a divisão sexual na exploração do trabalho feminino: a classe operária é tendencialmente feminina como forma de precarização dos salários; a divisão etária, suprimindo das crianças o direito de desenvolver sua potência para serem exploradas como mão-de-obra escrava; a violência contra os gêneros diferentes. A foraclusão da questão de gênero e desatar da violência que deflagra.

 No plano político, o sistema é tão deficiente que impede, salvo raras exceções, a emergência de lideranças populares; o próprio termo populismo é usado de forma distorcida para lançar pecha em quem se arvora com coragem em defensor dos povos; os políticos e os intelectuais que entendem e colocam às claras e com veemência a questão colonial são objetos de campanhas intensas de estigmatização. No plano ideológico, a branquidão se vê como o estuário das qualidades universais da humanidade e, os outros, são bárbaros cujo direito à vida é desprezado e, quando demonstram algum talento exponencial, são rechaçados brutalmente. A colonialidade constitui um horizonte de expectativa contrario às projeções constitucionais.

A colonialidade do poder é a grande montanha que temos de vencer e é urgente. Para superar isso, somente colhendo a constituição pela palavra, isto é, pela torção político-hermenêutica que coloque o comum acima da branquidão como propriedade.

Por: Luís Eduardo Gomes do Nascimento, Advogado e Professor da UNEB.


  • MÜLLER, Friedrich. O novo paradigma do direito: introdução à teoria e metódica estruturantes. Rio de Janeiro: Revista dos Tribunais, 2013. É preciso entender a normatização apócrifa em sentido mais amplo do que proposto por Müller. No processo penal, a apropriação privada da linguagem permite que fatos atípicos sejam qualificados como típicos, isto é, permite a normatização apócrifa dos fatos. Daí a importância crucial da epistemologia da prova.
  1. ENGELS, Friedrich. Anti-duhring. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p. 89
  2. ARNAUD, André-Jean. O direito traído pela filosofia. Porte Alegre: SAFE, 1991, p. 163.
  3. Sobre o conflito de interpretação consultar: NASCIMENTO, Luis Eduardo Gomes do. As antinomias do direito na modernidade periférica. Paulo Afonso: SABEH, 2018. Nesse livro, dentre tantas novidades, inaugura-se, no Brasil, a hermenêutica jurídica analógica como forma de combater a afasia linguística que nos assola hoje.
  4. RANCIÈRE, Jacques. Nas margens do político. Lisboa: KKYM, 2014, 146-7.
  5. WARNING, Rainer: Estética de la recepción. Madrid: La balsa de la Medusa Visor, 1989. Coleção em que os conceitos centrais da estética da recepção são desenvolvidos.
  6. KARATANI, Kojin. Transcritique: On Kant and Marx. London: The MIT Press, 2003.
  7. Capítulo 1.4 da Obra Pensar Desde as Margens da Modernidade: A Emergência de Novas Heterotopias, ebook, Editora Oxente, 2022.

Ao nosso Partido

Se trapos e farpas bruxuleiam no desconsolo
O partido urde o conjunto inabalável
Se o trigo demora e a chuva tarda
Os rios se turvam
Os oceanos se fecham
E os astros se despenham perdidos
O partido organiza as oníricas projeções
e as insere em diagramas fecundos
Se a vindima não viça
E as charruas travam sobre o cultivo
Não brota no pão o fogo vivo do trabalho
E nos fornos em convulsão a brasa lenta
Não fornece o dia necessário
Se nas casas de farinhas
Nos vergéis sonhados pelo camponês pela camponesa
Nos engenhos o mel não brota
O nosso partido organiza o conjunto inabalável
A beleza perdida
Os choros pungentes
O nosso partido sabe que não há justificação
E organiza o conjunto inabalável
e fecunda o tempo
e faz de cada vinha
de cada fábrica
o redivivo sonho inabalável dos que, no passado,
não puderam existir
e engendra o alimento
de todas as manhãs
e fecunda o calor
de todas as noites

Por: Luís Eduardo Gomes do Nascimento, Advogado e Professor da UNEB.

HEGEL

Em que infância adormece teu vigor de filósofo
Abraçando, voraz, a nado, todas as contradições
Que pululam neste vergel
Nesses sonhos que pervagam sobre extensões ínvias e ignotas

Pude um dia saber-te
E me vi no aberto, para o aberto
E lanças lancinantes
Golpes pérfidos
Abraços delicados
Sonhos de pureza golpearam-me
E desconfie de sublimações
Quis mesmo foi o corpo no solene de se esprair sobre o infinito

O teu espírito em movimento saindo das épocas distantes
Juntando-se aos mais próximos acontecimentos
Jornais, livros e tua fome de tudo abarcar
Desde a chama do cigarro à elipse dos planetas
Em que infância adquiriu tanta coragem
Tanta vulnerabilidade
Para poder provar da dor do saber
E do vinagre de, em plena revolução,
Ver que, na mais imperfeita das trajetórias,
Pode emergir uma grave manhã
Sem trombetas e sem alarde
Puro instrumento cortante
tropas calcando aos pés flores,
Derruindo sonhos pueris
Esgarçando esperanças vãs
Para poder fazer nuvem chuva densa
Compacta tempestade
Furações que fulminam os campos sem esperança
Para conferir-lhes o amanho do pastor
O sonho do profeta amante do silêncio
Em pleno deserto
Em peleja pelo equilíbrio
Pela justa medida
Nem pastor do ser, nem sentilena do vazio,
Mas aquele que, sob as mais prementes circunstâncias,
Tenta cingir as mais complexas constelações do presente
Júpiter, Netuno, riachos, cafezais,
Sonhando o deus do feldspato, ígneas possibilidade do sol
No meio-dia, na meia-noite, na meia-lua
Nos extremos das mil milhas, jardas, alqueires de solidão
Pousando na mão, na forma vã dos dias sem arautos
Não são os anos, os séculos dispersos?
Que fio os atravessa dando-lhes fibra e têmpera?
Que razão fulgura tecendo-os numa razão sempiterna?
Em que infância mora o teu dissabor
Por sensaborias e edificantes palavras
Quisera mesmo o profeta de verbo adunco, de intrincadas sentenças,
Emaranhados enunciados onde se possa refulgir as vastas manhãs dos descaminhos humanos transitando até a ágora universal onde bicho, planta, sargaço, limo,
Engenho, motor, ladrilhos, sobrados, trilhos e casas guardem um pouco do esplendor do sol
Foi auscultar e viu que só no fundo é possível brotar águas nuas
Quão estreita a via por onde a verdade aflora
Por isso, pergunto em que infância homizia-se teu vigor de filósofo?
Foste velho desde a infância mesmo jovem
Se tudo prorrompeu é porque te guardaste do riso fácil,
Dos arruídos solenes
Quão firme esteve em amar o difícil
Porque, se do átimo do agora, colhemos apenas o tropel inútil
A mim ensinou que é preciso amar o longe
na fenomenologia dos povos, no espírito encarnado
na via crucis,
na via de sempre renascer nas sublimes redenções dos povos em Cochabamba,
Em Pequim
Ou em um templo em Constantinopla ou transitar de novo qualquer embarcação fenícia
Em que velhice encontro a infância em que te torna mais do que um nome
Uma estrela, um amigo, um irmão, uma estrada
Em que cabe tudo quanto pude conceber, sentir, pensar
Em que rincão, em que revolução encontro o encontro
A enseada de tantas estações,
Pois melhor do que ter descoberto um outro planeta
Foi ter assentado o promontório de tanta comunhão

Por: Luís Eduardo Gomes do Nascimento, Advogado e Professor da UNEB.

PANDEMIA, DILEMAS TRÁGICOS, DIALÉTICA E LINHA DE MASSA

A René Zavaleta e a Zhou Enlai

“Visto que desejas continuar no trono, bem melhor será que reines sobre homens do que na terra deserta. De que vale uma cidade, de que serve um navio, se no seu interior não existe uma só uma criatura humana?” Rei Édipo, Sófocles

O PESO DO SÉCULO
A Zhou Enlai
Diáfana presença no ar de chumbo
Mais sutil do que vento
Hidráulico, sabe a tempestade
Sabe dos campos minados onde se emaranham passado e porvir
Das longas marchas onde o possível e o fel se intricam
Pudera eu ver-te, camarada;
Pudera eu, com meu alforje de pérolas e canções, homenagear-te;
Nos teus ombros de leveza
Pesa a dor do século
aprendi que, no mais emaranhado dos cafarnauns, tua presença diáfana trouxe
a cã calma, a tez da aurora, o júbilo dos povos,
Pudera eu ver-te, camarada
Pudera eu, com meu alforje de pérolas e canções, homenagear-te;

É preciso perguntar que diagrama de poder uma teoria secretamente secreta. A ciência econômica, na medida em que se esvazia em números abstratos, ao mesmo tempo, de forma sutil, alimenta políticas voltadas ao controle, conforme dizia Battaille, do fluxo de energia sobre a terra e, outrossim, analisando as várias pressões exercidas pela ação humana, invoca o topos da escassez dos recursos e, por corolário, justifica o controle das populações.

Marx sempre criticou o topos retórico da escassez dos recursos que sempre é esgrimido para justificar dilemas trágicos inexistentes, o fatalismo inexistente das desigualdades e o controle das populações. Na verdade, o topos da escassez é a forma com que a economia burguesa clássica legitima um modo de produção que cria uma superpopulação relativa, entregue à própria sorte, deserdada do comum e desterrada do sistema de necessidades, vogando à sombra do fantasma de Malthus, perecendo por fome e por desemprego. Malthus defendia que os recursos crescem em proporção aritmética e as populações avançam em proporção geométrica. Dessa forma, os recursos disponíveis se tornariam escassos, postulando as mais variadas formas de controle das populações, desde a doença à guerra.

O topos da escassez dos recursos serve para evitar o enfrentamento do problema central: o funcionamento do modo de produção que, forjado na lógica da extração de mais-trabalho e mais-valia, leva ao esgarçamento do metabolismo ser humano e natureza e produz uma superpopulação errante e desprovida dos direitos materiais.

É necessário verificar as relações entre biologia e as ciências sociais. Na verdade, mais do que nunca é preciso fazer a genealogia da incursão biologicista nas ciências sociais. A sociologia, para além do monismo epistemológico pelo qual os modelos das ciências naturais serviriam de paradigma para as ciências sociais, na sua gênese, sofreu o desvio biologicista por Spencer e pela incorporação de um darwinismo social mediante o qual as lancinantes desigualdades encontrariam amparo no argumento de que prevalece o mais forte. Engels, em carta, averba:

“Toda a doutrina darwinista da luta pela vida é simplesmente a transposição da sociedade na natureza animada da doutrina de Hobbes sobre o bellum omnium contra omnes [ a guerra de todos contra todos], a doutrina econômico-burguesa da concorrência, juntas à teoria demográfica de Malthus”

O modo como a pandemia está sendo gestada conjuga todos esses elementos numa manifestação funesta, tétrica e sombria do controle das populações. A pandemia, então, tem sido usada e mobilizada para arruinar a economia industrial de certos países, mergulhando num caos que, a longo prazo, pela via do vírus ou da destruição econômica, desemboca no controle das populações, isto é, do corte necrófilo entre quem merece e quem não merece viver, à sombra da tétrica necrofilia do poder. A covid-19, por ser retrovírus, avança em proporção geométrica, e já se está na quinta onda, e, no horizonte sombrio, várias ondas podem vir.

Marx, em carta a Kugelmann, mostra que o trabalho vivo é a fonte criadora de valor ao conjeturar sobre os efeitos de uma greve prolongada e indeterminada: o que aconteceria com um país se os trabalhadores em geral deixassem de laborar por um período de um ano? A nação pereceria, conclui Marx .

A pandemia enquanto interrupção da atividade econômica industrial pode gerar um cenário de massacre dos povos. Trata-se de um jogo de soma zero em que todas as escolhas, mesmo múltiplas, representam a mesma escolha de fundo: a da valorização do valor futuro da forma-dinheiro destacada da forma-mercadoria. É necessário, seguindo a linha de demarcação da dialética, a linha de massa, coordenar de forma eficaz e combinada a manutenção da atividade econômica e o controle sanitário do vírus. Sem essa coordenação, o mesmo cenário, ainda que por vias oblíquas- vírus- ou concêntricas – vírus e destruição econômica, vai se desenhar sombrio: massacre de vidas humanas e populações.

A questão chave é, então, coordenar o retorno à atividade industrial e o controle da pandemia mediante regras sanitárias rígidas. Contra o jogo de soma zero, onde todos os lances expressam, com variações, a mesma escolha de fundo, como num lance teórico de Kierkegaard, escolher a própria escolha para poder produzir um mundo em que a consigna “o ser se diz de várias maneiras” seja a força motriz de um modo de produção comunitário.

Reescrevendo a divisa de Tupac Katari: resistiremos e seremos milhões.

Por: Luís Eduardo Gomes do Nascimento, Advogado e Professor da UNEB.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Lettres sur les sciences de la nature (et les mathématiques. Paris: Éditions Sociales, 1973, p.85. Não obstante, tiveram que palmilhar um conflito de interpretação em relação a Darwin e, somente depois de um longo debate, entenderam que, em Darwin, a evolução não é a ascendência do mais forte, mas um longo processo pelo qual as espécies criativamente produzem uma homeostase tensa com a biosfera: DARWIN, Charles. The origin of species. Hertfordshire: Wordsworth editions, 1998. Nas cartas Marx e Engels revelam o evolver da compreensão de Darwin.
MARX, Karl. Lettres à Kugelmann. Paris: Editions Sociales, 1930, p. 99-100, carta de julho de 1868.

Mônada: espelho ou torção e expansão

Somos uma mônada, mas onde tudo se decide: o logos, o cosmos, tempo-espaço, cidade-pólis, estado, nação, nações. Nas nervuras do sol, do sal, nos pélagos profundos, sobrevoar as falésias, um descampado, os milharais, os arrozais, as vastas extensões, o orvalho, a chuva de qualquer mês, o vento nos beirais, percorrendo os corredores, mas o que pode cada um?

Pensar em Aristóteles e realizar a universalidade sendo político ao viver no, com e por seu povo, totalmente entregue à vida pública ou ser filósofo buscando sob uma palavra um conceito enquanto dispositivo político. Ambos, à seu modo, e no âmbito de ação próprio, convertidos em um guerreiro entre as muralhas do Estado, espreitando a brecha por onde o sonho do povo pode passar. Podem o filósofo e político encontrar um ponto arquimédico ou ambos sabem que o real é a virtualidade de vários possíveis e que, quando chegada a hora, é preciso saber ver o momento que o acaso em velocidade infinita ensejou? Penso em Maquiavel – no seu texto longe dos estereótipos- que sonhava a unidade de seu povo e penso: De onde virá, de que lugar desconhecido, de que tempestiva imprevista, de que tufão inapreensível, virá quem possa ser o signo de uma nação cheia de unidade, força e forma de vida universal?

O Retrato do filósofo nas solidões da colônia.

Por: Luís Eduardo Gomes do Nascimento, Advogado e Professor da UNEB.

SUN YAT-SEN: O CIMENTO DA REVOLUÇÃO DE OUTUBRO

“Alguns acontecimentos históricos se consolidam sob a maneira de uma data. Mesmo sendo uma convenção, ganham a forma de signos explicativos. Penso em 01 de Julho, data de fundação do Partido Comunista da China e, em alusão à data, ao texto magnífico de Mao Tsé-Tung dedicado ao 28 aniversário do Partido. O texto é profundo e invoca dois personagens erigidos em personagens conceituais de tal forma que adensam as correntes e tendências e devir histórico da nação. As continuidades e as descontinuidades de uma revolução, os pactos necessários com o inimigo, a hora delicada em que, no curso dos acontecimentos, até o amigo se torna suspeito: é a chamada hora do lobo. O reacionário e inimigo da classe operária Chiang Kai-shek com o qual Mao, no auge da guerra anti-imperialista contra o Japão, precisa dialogar em nome da unidade nacional e da luta anti-imperialista. Era aí que conversava com meus amigos sobre a figura inusitada de Yukio Mishima e a importância da Revolução Cultural. Outrossim, aparece, no texto, a personalidade que representa a continuidade histórica das revoluções nacionalista e operária no momento de interregno: Sun Yat-sen. Declara Mao Tsè-Tung: “No auge do mais profundo desespero, Sun Yat-sen encontra a Revolução de Outubro e o Partido Comunista da China”. O que pensar desse personagem que, inicialmente, inaugura o movimento que fez os olhos e a inteligência de Lenin brilharem: os punhos da justiça e da concordância, o movimento que cimentou a Revolução. O próprio Lenin, no momento mais incerto da revolução de 1917, considerado agente alemão, mergulhou na mais profunda inquietude e no receio de ser considerado traidor. Toda revolução tem que atravessar os momentos nebulosos de incerteza, paranóia e dúvida. Nunca recusar o apoio de um aliado. É singular que, no ápice da luta nacionalista, Sun-Yat-sen tenha encontrado a classe obreira e classe campesina e tenha, no fundo do abismo em que toda revolução se funda, celebrado a Revolução de Outubro e o Partido Comunista da China, representando a mais profunda continuidade na descontinuidade histórica. Eu vi que os olhos de meus amigos brilharam ao citar este texto. E veio um verso de Paul Celan: Sobre as inconsistências se apoiar. Somos destinados à alteridade do outro e isto é a revolução. Nacionalistas e, ao mesmo tempo, internacionalistas, nos legou Sun-Yat-sen”
O retrato do filósofo nas solidões das colônias

DE QUAL FANON FALAMOS?

A Luma Mahin, rebelde, viva e, absolutamente, feliz.

Um dia, uma dia cheio de penumbra e expectativa de luz, talvez se faça a história da recepção dos filósofos: de como cada época se apropria de um autor para engajá-lo numa ou outra direção, de como um autor crítico pode ser desarmado por seus pretensos continuadores mediante a supressão das bases e das injunções que lhe move para lançá-lo nas vagas dos modismos do presente.

Se Sartre, em o Prefácio dos Condenados da Terra, mostra um Fanon capaz de abrir uma ferida narcísica no ufanismo eurocêntrico porque, hoje, se verifica um retorno a um Fanon reacionário mesmo que sob a aparência transformadora. Porque Fanon não é apenas um pensador que mostrou a relação intrínseca entre capitalismo e racismo, mas, sobretudo, um pensador que procurou as raízes profundas da alienação ideológica e econômica dos negros.

Uma forma de fugir da radicalidade de um autor é afastar a totalidade em que se engaja para abordar aspectos subalternos e retirar-lhe a seiva contestatória. De qual Fanon falamos?

Não basta dizer o óbvio de um excedente humano capitulado como refugo nem fazer uma aposta vazia na alteridade, é preciso coragem de enunciar qual o dispositivo do racismo numa formação social marcadamente exploradora? Dizer, no vago, sem desvelar a estrutura profunda da formação social capitalista, que não há capitalismo sem subsídios raciais é tergiversação incompatível com a injunção do pensamento que Hegel mesmo articulava à coragem da verdade e a fé no espírito humano1.

Dizer que há uma massa excedente fora da humanidade é render-se a uma lógica simplista, pois, na medida em que figura como superpopulação relativa sustenta a lógica da exploração daqueles que ocupam um lugar no sistema de exploração da mais-valia. A massa está fora e dentro ao mesmo tempo. É uma percepção dialética que deve realçada para que o aspecto da ‘necessidade’ estrutural da massa excedente nos marcos do capitalismo não seja obliterada.

Fanon, mesmo escrevendo no estertor e na agonia das lutas anticolonias e na tentativa furiosa de expressar de forma lacônica e explosiva a situação colonial, soube enunciar o sintoma do reacismo de forma muita clara:

“Resta evidente que a verdadeira desalienação do Negro depende da tomada de consciência abrupta das realidades econômicas e sociais” 2

Uma teoria é científica, conforme salienta Maurice Godelier, quando se esforça por estabelecer as relações e as correspondências entre as diversas instâncias que compõem uma formação social ainda que reconheça, na linha althusseriana, a relativa autonomia entre essas instâncias. Mais ainda, invocando a metáfora maoísta, a relação em espiral e de influência recíproca entre as diversas instâncias de uma formação social.

Depreende-se que o pensamento de Fanon remonta um fenômeno social às determinações econômicas e, nessa injunção, longe de pretender a crítica da razão negra, engaja-se, com furor e verdade, na crítica de todos os dispositivos e diagramas da branquidão como propriedade. Por isso, de que Fanon falamos?3

Por: Luís Eduardo Gomes do Nascimento, Advogado e Professor da UNEB.

1 Em 2008, em A legalidade como instrumento retórico de conformismo social, já tínhamos assinalado que a abolição da escravatura gera uma superpopulação excluída sem qualquer possibilidade de inserção na sociedade industrial, revelamos a necrofilia do poder, e definíamos a democracia como alteridade ao conflito e ao outro num abertura inclusiva e poética do mundo, mas, no enunciar isso, fazíamos referência à estrutura hegemônica da propriedade como forma de criar um humanismo excludente. Ou seja, ainda que naquele momento tínhamos crítica a Marx, nunca o abandonamos e, ao longo do tempo, o que era crítica era apenas um ausência: a ausência de uma leitura mais ampla e detida de Marx. Por isso, passamos a reinvindicar, com destemor, o marxismo ortodoxo. Nunca deixamos de nos mover em direção à verdade.

2 FANON, Franz. Ouvres: peau noire, masques blanc, Paris: Éditions La Découverte, Paris, 2011, pagina 66.

3 Pretendo, futuramente, dedicar-me a todas as determinações e consequências libertadoras da obra de Fanon.

Poema em Homenagem a Muhammad Ali

Nós, cujas mãos tingida de carvão, hulha e betume,
Arvóres de tronco milenar tornando-se mesa;
Nós, cujas retinas o sol agrediu, furiosamente
Arrancamos da pedra uma nesga de pão
Nós, os condenados e errantes, cujas farpas
Bruxuleiam ao vento acre, guardamos consaguinidade com os húmus
Que no escuro martela lenta e firmemente o solstício,
As estações nascituras, a sístole e a diástole do sol.
Nós, frutos que não inculcam a culpa, arremetemos contra o muro,
Fruímos de uma palavra corrosiva, de uma amizade salutar com o barro vivo desta casas
Nós que por puro amor somos obrigados a desfraldar a liberdade.

Por: Luís Eduardo Gomes do Nascimento, Advogado e Professor da UNEB.

O RETRATO DO FILÓSOFO NAS SOLIDÕES DA COLÔNIA

“Numa atmosfera plumbeia, aparecera meu grande amigo. Viera de outro país. Parecia ingênuo, mas era pura bondade. Éramos maoístas. Tínhamos a mesma formação. Disse-lhe, tranquilo, bafejando um cigarro: pensar de forma articulada é muito arriscado. Percebi, atônito, que nele se formara há muito o senso do risco, o risco de ter a inteligência que viajava entre as esferas e mergulhava no sistema das necessidades, ao me dizer: o problema é encarnar a contradição de toda uma sociedade. Concordando, disse: por essas plagas, o melhor caminho é o murmúrio da literatura e esperar os frutos do tempo. Falei dos pactos, dos inúmeros pactos que comportam a vida, desde Édipo às formas de governo, e lancei Lacan, referindo-me ao meu contexto: a palavra ou a morte. Atalhou num átimo veloz, como se rechaçasse eminências pardas,: para mim restou ”a política ou a morte”. Era como se uma lâmina refletisse o sol e o próprio sol doesse de dor. Silenciamos e ficamos horas a escutar o sibilo do vento enquanto lá longe um relógio imitava os corações. Um amigo profundo que, de alguma forma, me disse que talvez o caminho devesse ser o mesmo e já fosse tarde para mim, agora escritor recluso. Pensando bem, és um intelectual orgânico, disse. Antes de ir, pediu, taciturno, cuidado: “Estamos em tempos de interregno e neles as contradições se agudizam”. Lembrei que me disse que a lei é um artefato semiológico. Respondera-lhe que a linguagem é bom agasalho. Um samurai, cujo perfil sutil sumia no espaço deixando a amargura de sua ausência. Um grande amigo, entre a palavra e a política, a mesma vulnerabilidade dos seres pensantes. Quase lhe disse de longe a frase de Pascal: o ser humano é o caniço pensante. Nunca tinha pensando naquela metáfora e era uma alegria e um temor. E seu passo era de quem já não vacila nem teme o rugido”.

Por: Luís Eduardo Gomes do Nascimento, Advogado e Professor da UNEB.

MARXISMO E A RETÓRICA DA ESCASSEZ DOS RECURSOS

“Entre os dois mundos a trégua nos rejeita”

Pasolini

É preciso perguntar que diagrama de poder uma teoria secretamente secreta. A ciência econômica na medida em que se esvazia em números abstratos ao mesmo tempo, de forma sutil, alimenta políticas voltadas ao controle, conforme dizia Battaille, do fluxo de energia sobre a terra e, outrossim, analisando as várias pressões exercidas pela ação humana, recusa, invocando Marx, o topos da escassez dos recursos.

Marx sempre criticou o topos retórico da escassez dos recursos que sempre é esgrimido para justificar dilemas trágicos inexistentes, o fatalismo inexistente das desigualdades e o controle das populações. Na verdade, o topos da escassez é a forma com que a economia burguesa clássica legitima um modo de produção que cria uma superpopulação entregue à própria sorte, deserdada do comum e desterrada do sistema de necessidades, perecendo por inanição, fome e desemprego. O topos da escassez dos recursos, ao ocultar a forma predatória com que funciona o capitalismo, serve para evitar o tangenciamento do problema central: a questão não é da escassez dos recurso, mas do modo de produção que, forjado na lógica do mais-valor, leva ao esgarçamento do metabolismo ser humano e natureza.

Em Por uma renovação marxista da dependência (1), reiteramos necessidade de verificar as relações entre biologia e as ciências sociais. Na verdade, mais do que nunca é preciso fazer a genealogia da incursão biologicista nas ciências sociais. A própria sociologia, para além do monismo epistemológico pelo qual os modelos das ciências naturais serviriam de paradigma para as ciências sociais, na sua gênese, sofreu o desvio biologicista por Spencer e pela incorporação de um darwinismo social mediante o qual as lancinantes desigualdades encontrariam amparo no argumento de que prevalece o mais forte. Marx e Engels, por sua vez, tiveram que palmilhar um conflito de interpretação em relação a Darwin e, somente depois de um longo debate, entenderam que, em Darwin, a evolução não é a ascendência do mais forte, mas um longo processo pelo qual as espécies criativamente produzem uma homeostase tensa com a biosfera (2).

Ao desvio biologicista das ciências sociais devemos opor uma epistemologia marxista decolonial para que não haja formas silentes de construção de humanismos excludentes fundados na ideia de superioridade racial e formas de políticas inimizades contra os que são considerados inumanos (3). A retórica da escassez ocorre nesse engajamento e precisa ser desvelada para que não se legitime o controle malthusiano das populações.
Marx já assinala que o modo de produção do capitalismo só se mantém na medida em que socava as duas fontes criadores de valor, quais sejam: o trabalho vivo e a natureza. A questão não é a de escassez de recurso, mas sim de refundar o humanismo para que as formações sociais, imantadas pela requisição virtual de todos, estabeleça aquilo que Hegel chama, em A fenomenologia do espírito, de comunidade universal de bens em que se proveriam as necessidades sem distinções ou hierarquias e, para citar, superar a exploração do ser humano pela administração comunitária das coisas.

Por: Luís Eduardo Gomes do Nascimento, Advogado e Professor da UNEB.

1. NASCIMENTO, Luis Eduardo Gomes do. Por uma renovação marxista da Teoria da Dependência. Juazeiro: Oxente, 2022. Se a economia, conforme salientava Engels, é a reprodução da vida, urge, primeiro, descolonizar epistemologicamente a ciência econômica para, depois, mais bem articular a libertação econômica. O livro é um ensaio fundador dessa superação decolonial da ciência econômica tradicional, versando sobre os caminhos factíveis da libertação econômica da América Latina, Ásia e África, desvelando a inflação e a dívida pública como principais instrumentos de dominação colonial e todos os deslocamentos políticos feitos para ocultar essas duas questões crucias, desde a questão das relações de trabalho às relações tributárias, num descortinar da totalidade que projeta a necessidade de refundar a economia no trabalho vivo e no metabolismo ser humano e natureza.

2. DARWIN, Charles. The origin of species. Hertfordshire: Wordsworth editions, 1998. Nas cartas em que tratam das ciências naturais, Marx e Engels revelam o evolver da compreensão de Darwin.
3. Sobre o conceito de ciência em Marx e os desdobramentos possíveis, ver nosso: NASCIMENTO, Luis Eduardo Gomes do. Os quilombos como novos nomos da Terra: da forma-valor à forma-comunidade. Minas Gerais: Dialética, 202