SAÚDE DO BRASIL: Diário de uma internação em um hospital de São Paulo.
EL País acompanha por cinco dias a rotina de uma idosa dentro de uma unidade do Governo paulista e constata pacientes colocados no corredor à espera de uma vaga, enquanto internados aguardam por médicos que só trabalham meio período.
No fim da odisseia, as desculpas esfarrapadas.
Parte V – OS BUROCRATAS
A burocracia desses processos acaba mantendo pacientes internados além do tempo necessário, apesar da existência da fila para a internação que leva pessoas em estado grave a esperarem no corredor por mais de uma noite
Às 22h10, cinco horas depois de a maca ser colocada no corredor, conseguimos chegar ao quarto – um lugar espaçoso, para duas pessoas, banheiro limpo e uma cama mais confortável.
Pergunto à enfermeira se algum cardiologista ainda verá a paciente, mas àquela hora já não há mais médicos. Descubro que eles só passam no horário da manhã. Saio no corredor para pedir um cobertor, mas não há nenhum disponível. Na manhã seguinte, peço um travesseiro extra. Também não tem.
São 7h40 da sexta-feira quando o médico entra no quarto. Atencioso, faz uma série de perguntas e diz que pedirá três exames: um Holter 24h (aparelho que fica no paciente por 24 horas para medir a frequência cardíaca), um teste ergométrico (para verificar a existência de alguma doença coronariana) e um exame de sangue (para afastar de vez a existência de um infarto).
Em seguida, descobrimos mais sobre o funcionamento do hospital: quem faz os exames é o ambulatório, que funciona em horário comercial (até sábado à tarde). Àquela altura, todos os aparelhos para o Holter 24h que seriam usados no sábado já estariam destinados.
Por isso, na estimativa mais otimista, ele só seria colocado na segunda, o que faria com que o exame terminasse na terça. Com sorte, o médico que faz a leitura dos resultados e dá o laudo o veria naquele mesmo dia e tudo chegaria na mão do médico cardiologista na quarta de manhã.
Queiroz, o diretor do hospital, afirmou que nenhum paciente fica internado apenas para aguardar o resultado desses exames, mas reconhece que o hospital precisa adotar medidas, que já iniciou, para otimizar o trabalho e diminuir o tempo de internação dos pacientes, por isso alguns procedimentos na ala de cardiologia serão revisados.
A burocracia desses processos, de fato, acaba mantendo pacientes internados além do tempo necessário, apesar da existência da fila para a internação que leva pessoas em estado grave a esperarem no corredor por mais de uma noite. A espera por exames entre os internados é algo comum. Um deles esperava havia nove dias para realizar um cateterismo. A máquina que faz o exame estava quebrada.
Depois dos nove dias, ele recebeu alta e teria que voltar em outro dia, quando a máquina estivesse funcionando.
Para tentar melhorar a situação, os próprios pacientes têm a receita: “só consegue agilizar o atendimento quem tem familiar que vai atrás por conta própria”. Provo que o conselho faz sentido: resolvo ir até o tal ambulatório onde os exames são realizados.
Lá descubro que às 12h da sexta-feira (quatro horas depois do pedido médico), ninguém havia recebido a guia necessária para agendar o exame. Volto ao andar da internação, cobro o enfermeiro que me diz que o pedido havia acabado de ser encaminhado.
Volto ao ambulatório e insisto para que ao menos o Holter fosse iniciado naquela sexta-feira. A enfermeira, complacente, promete tentar, mas acha difícil que o exame aconteça antes de segunda. “No máximo consigo para o sábado”, disse. Foi o que aconteceu.
Com o tempo ganho com a antecipação do exame, que revela, afinal, que o caso não é grave, a paciente que acompanho tem alta na terça-feira de manhã. Uma internação de quase cinco dias completos para a realização de três exames. Algo rápido para os padrões do hospital. Questionado, o Iamspe não informou o valor de um dia de internação na cardiologia.




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