SAÚDE DO BRASIL: Diário de uma internação em um hospital de São Paulo.
EL País acompanha por cinco dias a rotina de uma idosa dentro de uma unidade do Governo paulista e constata pacientes colocados no corredor à espera de uma vaga, enquanto internados aguardam por médicos que só trabalham meio período.
Ainda a odisseia. Leia.
Parte IV – A ACOMODAÇÃO
Apesar dos três seguranças que guardam a entrada desta área, não há muito controle de quem passa por ali. No meio da confusão, uma senhora circula pelos corredores entregando, de maca em maca, um livrinho com propaganda de uma igreja pentecostal e algumas orações. Olha pra mim e, sorrindo, diz:
– Eu nem podia estar aqui, mas errei o caminho e aproveitei. Depois se afasta, calmamente, e continua a tarefa.
Os pacientes psiquiátricos também circulam livremente, inclusive para fora daquele espaço. Questionado posteriormente pela reportagem, o diretor do hospital, Roberto Dantas Queiroz, explica que eles estavam em atendimento clínico, por isso estavam junto aos demais pacientes. Por volta de 20h30, o senhor do bigode espesso, que mais cedo havia sido contido pelos seguranças, acorda e começa a andar, impaciente, de um lado para o outro. Já usa o pijama do hospital e as calças estão sujas de urina.
Puxo papo com o vizinho de maca, o homem de 40 anos com o ombro quebrado que também tem trombose no pé. Ele está internado pela segunda vez em menos de 15 dias para realizar uma biópsia que descobrirá se o osso de seu ombro quebrado partiu tão facilmente por causa de um tumor –na primeira biópsia, conta ele, o material recolhido não foi suficiente para análise.
A essa altura, a impaciência do paciente do bigode espesso passa a ser expressa em palavras. Primeiro, murmúrios quase inaudíveis que em pouquíssimo tempo evoluem para gritos que suplicam, novamente, o atendimento de um psiquiatra.
– Eu já devia estar em casa com a minha mãe, berra ele.
A cena não demora muito para ganhar contornos de um pastelão hospitalar. O paciente que havia “rasgado a Constituição” se aproxima dele com uma bíblia. Com o livro em riste, começa a pregar, em uma espécie de competição de berros:
– Segue Jesus que ele tem poder!
Os três seguranças voltam e se aproximam dos dois. O da bíblia se afasta e abaixa o livro. O de bigode, apesar de contrariado, não resiste e volta para a cama, onde é sedado novamente. As pessoas que haviam saído de suas macas, algumas que tentavam descansar apesar do barulho constante e da luz forte, voltam a dormir.




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