Arquivos mensais: novembro 2016

Motorista e gari reduzem a pó oligarquia potiguar

JUCURUTU (RN)- Em um grotão nordestino, onde ainda predomina fortemente a força do coronelismo, o que parecia impossível – a formação de uma chapa entre um motorista de ambulância e um gari – não apenas virou realidade como derrotou uma oligarquia de 48 anos que se revezava no poder entre pai, filho e parentes. A façanha se deu em Jucurutu, no Sertão do Seridó, a 233 km de Natal, capital do Rio Grande do Norte. Valdir Medeiros, o Valdir da Ambulância, como é conhecido, aliou-se ao gari José Pedro numa chapa puro sangue do Pros e derrotou o prefeito George Queiroz (PMDB), filho do deputado Nélter Queiroz, por uma diferença de 234 votos.

Apurados os votos das 52 seções eleitorais do município, Valdir Medeiros teve 6.409 votos (50.93%) e o prefeito George Queiroz 6.175 votos (49,07%). Entre os eleitores que foram às urnas, 121 votaram em branco e 559 anularam seus votos. O município tem um eleitorado da ordem de 15.431 votantes, dos quais 18% deixaram de exercer sua cidadania, percentual relativo à abstenção.

Jucurutu, com 19 mil habitantes, foi palco de uma disputa acirrada em que a população comparou com a história bíblica entre Davi e Golias. Se na campanha do prefeito, com a máquina na mão, suporte econômico a olho nu e o apoio de poderosos, como o governador Robinson Farias (PSD) e os principais líderes da família Maia, tudo havia em demasia, na de Valdir a solidariedade foi o seu combustível.

O custo da sua eleição foi de apenas R$ 18.808,46, dos quais R$ 7.310 próprios, conforme registro de prestação de contas no Tribunal Regional Eleitoral. “Vendi alguns bens, como uma moto, para manter a campanha”, relata Valdir, acrescentando que o adversário gastou rios de dinheiro. “Para eles, o limite era o céu. Não fosse o derrame de dinheiro na compra de votos nossa diferença teria sido maior”, admite Valdir, 35 anos, dos quais 11 de serviço público, fichado como motorista concursado.

Seu perfil foge ao estereotipo tradicional da profissão. Ao contrário da maioria dos motoristas, que se acomoda e não prioriza conhecimento, Valdir tem formação acadêmica. Graduado em Teologia, prega na Igreja de Cristo, denominação evangélica, e está concluindo mais um curso superior, o de Geografia. “As pessoas sempre enxergam no motorista um semianalfabeto, mas graças a Deus sempre gostei de estudar e já estou pensando em fazer uma pós-graduação”, afirmou.

Voltado para o trabalho e à família, Valdir fez da ambulância um forte canal de relacionamento com a população mais pobre da cidade. Educado, jeitoso e habilidoso, ganhou popularidade, mas não a ponto de ser encarada como uma ameaça ao prefeito. “Quando minha candidatura surgiu nem o prefeito nem o deputado acreditaram, porque um simples motorista, que depois escolheu um gari para vice, jamais poderia representar qualquer risco de tomada do poder das mãos deles”, destaca.

Na vida pessoal, Valdir também é um vencedor. O resultado das suas economias, de R$ 1,5 mil de salário, e de pouco mais de R$ 1 mil de sua mulher, que trabalha num escritório de contabilidade, permitiu a realização do sonho da casa própria. Construiu uma casa simples, de primeiro andar, no bairro Bela Vista, quase um morro, na periferia da cidade. Ao lado, moram seus pais, também numa casa bastante modesta.

Colega de profissão do agora prefeito eleito de Jucurutu, o motorista Reginaldo Galdino de Alencar, que também dirige uma das ambulâncias da rede municipal de saúde, dividiu por muito tempo o alojamento no hospital destinado aos que se revejam no plantão. “Valdir sempre gostou de política, é um grande amigo e nunca faltou a um só dia de trabalho”, afirmou, adiantando que só acreditou na sua eleição depois de lembrar que havia ouvido da sua boca uma espécie de profecia. “Vou aceitar o desafio, porque ser prefeito de minha terra é um propósito de Deus”, disse ele.

Já o vice-prefeito eleito José Pedro, 31 anos, só tem o curso médio. Em janeiro de 2007, depois de se submeter a concurso público, assumiu a função de gari na cidade vizinha de São Rafael, a 42 km de Jucurutu. Sua escolha para a chapa se deu pela forte liderança na comunidade Boi Selado, de 1,5 mil habitantes, a 18 km da sede, onde o grupo do prefeito perdeu por uma diferença de 139 votos. Pedro já pertenceu ao grupo Queiroz. “Aqui, era reduto fechada deles”, afirma.

Embora não tenha formação acadêmica como Valdir, o vice supera suas deficiências nas letras com a sabedoria e o conhecimento prático que adquiriu na vida. Politizado, sabe conquistar o voto, tem um discurso afinado e liderança no distrito e principal base eleitoral. “Meu filho me deu duas grandes alegrias nos últimos anos. A primeira, quando passou no concurso de gari e a segunda agora, quando foi eleito vice-prefeito”, diz “seu” Araújo, o pai, de 54 anos, que vive da criação de seis vacas e duas novilhas, em Boi Selado.

Na campanha, Valdir era chamado pelos adversários de “o liso da ambulância”. José Pedro, de catador de lixo. Político ao estilo tradicional do coronelismo, que impõe o medo pela força e a prepotência, o deputado Nélter Queiroz, pai do prefeito, criou todas as barreiras para impedir uma candidatura no campo adversário. “Ele controla todos os partidos no município com mão de ferro. Impediu a nossa filiação no PTN, no PSC e depois no SD (Solidariedade). O Pros foi a nossa última alternativa e só conseguimos por causa do deputado Albert Dickson”, conta Valdir.

O deputado só não contava com uma dissidência familiar que debandou para o palanque dos lisos. Seu sobrinho Julinho Queiroz, filho do irmão, o ex-prefeito Júnior Queiroz, preterido na disputa pela Prefeitura, se vingou aliando-se à oposição. O racha fortaleceu a chapa do motorista e do gari, que não fizeram nenhum esforço, porém, para atrair mais pesos pesados da política tradicional. “Rejeitamos o apoio até de senador da República, porque a nossa candidatura se alicerçou na força do povo”, ressalta Valdir.

Nas ruas, segundo ele, o grito de guerra para tirar os Queiroz do poder era “O povo quer o liso, ninguém quer o barãozinho”. Não fosse a enorme popularidade conquistada pela união de um motorista com um gari, a eleição teria sido facilmente resolvida pelo grupo dominante. “Eles baixaram o nível, nos agrediram de toda forma. Diziam que nós éramos dois pobres coitados, que não íamos a lugar nenhum”, acrescentou.

Devido aos ataques e a forte influência do poder econômico, dos 11 vereadores que integram a Câmara Municipal, Valdir só elegeu dois. Mas ele não teme a desigualdade para governar. “Nós vamos ter ao nosso lado a força do povo, o poder não está nas mãos da Câmara, mas do povo. Vou tomar medidas populares e aprová-las com a força do povo”, afirma.

 

Fernando Gabeira: Se entrega, Corisco

RENANRenan Calheiros, no passado, perdia cabelos, mas não perdia a cabeça. Agora, ele ganhou cabelos, mas perde a cabeça, com frequência. Recentemente, disse que o Senado parecia um hospício e afirmou que ajudou a senadora Gleisi Hoffman no seu embate com a Lava Jato. Hoje, sabemos que ordenou varreduras em vários pontos estratégicos ligados aos senadores investigados pela roubalheira na Petrobras.

E Renan perdeu a cabeça de novo, chamando um juiz federal de juizeco e o ministro da Justiça de chefete de polícia. Sua polícia legislativa funciona como uma espécie de jagunços de terno escuro e gravata, a serviço de alguns coronéis instalados no Senado. Quando combatemos Renan e o obrigamos a deixar o cargo de presidente, os jagunços já estavam lá. Como o Brasil vivia num estado meio letárgico, tivemos de enfrentar a braço os jagunços de Renan para garantir a transparência de uma reunião sobre seu destino.

O sono brasileiro não é mais tão profundo como na época. Ainda assim, Renan sequer foi julgado pelos crimes de que era acusado na época. São as doçuras do foro privilegiado. Agora, ele quer que o foro privilegiado, que já era uma excrescência para deputados e senadores, estenda-se também aos seus jagunços. E que o espaço do Senado seja um santuário para qualquer quadrilha que tenha, pelo menos, um parlamentar como membro.

Talvez Renan esteja desesperado. Mas essa hipótese ainda precisa ser confirmada. Há sempre alguém que se acha o verdadeiro guardião das leis e se dispõe a defender Renan e o Senado, independentemente desse contexto bárbaro que presenciamos há anos. O próprio Gilmar Mendes, cujas posições são respeitáveis, saiu em defesa de Renan, sugerindo que a polícia não deveria entrar ali. Mas o que fazer quando a própria polícia do Senado comete uma delinquência? A resposta das pessoas que não foram atingidas pela Lava-Jato, mas se incomodam com o sucesso da operação, é sempre esta: falem com o Supremo. No caso do Renan, sob investigação em 12 processos diferentes, e sempre na presidência do Senado, o que significa falar com o Supremo?

Estamos falando com o Supremo há anos. Ele manda grampear senadores adversários, como fez com Marconi Perillo, orienta a agressividade e a truculência de seus jagunços contra deputados. Até hoje, para ele, o Supremo é apenas o cemitério de seus processos.

Renan, Gilmar Mendes e todos os defensores desse absurdo não conseguem me convencer que é preciso pedir licença ao Supremo para punir jagunços que usam equipamentos do Estado, diárias pagas pelo governo, para fazer varreduras na campanha de Lobão Filho, no Maranhão. Varreduras inclusive sob supervisão do genro de Lobão Filho, um homem chamado Marcos Regadas Filho, acusado de sequestro e mencionado no assassinato do blogueiro Décio Sá.

A diversão desse personagem para qual os jagunços trabalharam é usar o helicóptero para dar voos rasantes no Rio Preguiça em Barreirinhas, aterrorizando banhistas e pescadores.

— Foge, meu preto, que isso é vendaval — ouvia-se o grito dos pescadores

O halo protetor do Supremo não se limita aos bandidos do Congresso, mas aos seus jagunços e cúmplices regionais. A Lava-Jato não é infalível. Está sujeita a críticas como todas as atividades de governo. Não se deve usar o êxito da Lava-Jato com intenções corporativas, inclusive num momento de crise econômica como a nossa. Até aí, tudo bem. Mas negar à PF o direito de entrar no Senado quando o crime está sendo cometido pela própria polícia parlamentar, isso me parece um absurdo. O foro privilegiado tem sido uma espécie de escudo para os bandidos eleitos. Se o espaço onde atuam torna-se também um santuário para todos os que trabalham lá, teremos não só a impunidade de indivíduos mas a liberação de espaços especiais para o crime.

Nas campanhas que fiz contra Renan, desenhamos um cartaz dizendo: “se entrega, Corisco”. Isso foi há muito tempo. Seus crimes não foram punidos na época. Ainda me lembro das imagens das boiadas se deslocando no sertão para fingir Renan que era um grande criador. Os crimes não apenas deixaram de ser punidos. Aumentaram exponencialmente ao longo dos anos, ancorando-se inclusive na pilhagem da Petrobras.

Eduardo Cunha foi preso. Não tinha mais mandato. Se Renan continuar solto, é apenas porque tem um. É justo cometer crimes em série, sob o escudo de um mandato parlamentar? Renan está nervoso porque percebe o crepúsculo de um sistema de impunidade tecido pela audácia dos coronéis e a inoperância do Supremo. A evolução do país o levou a perder a cabeça, algo raro no passado. Espero que não chegue a arrancar os cabelos e ouça o meu conselho de anos atrás: se entrega, Corisco.